O analfabetismo do olhar: a perda da contemplação
Quando o sofrimento alheio deixa de causar estranhamento, algo essencial na vida social começa a se perder.Haverá um tempo, e talvez ele já tenha chegado, em que saber ler as letras não será suficiente para compreender o mundo. Vivemos o auge de um novo tipo de cegueira: o analfabetismo do olhar. Em uma era saturada por estímulos visuais ininterruptos, perdemos a capacidade elementar de contemplar o que está diante de nós. Ver tornou-se um ato mecânico; enxergar, um esforço hercúleo.
Sob o prisma educacional, percebo que a educação contemporânea focou excessivamente na técnica e na produtividade, esquecendo-se da pedagogia do silêncio e da observação. Ensinamos nossos jovens a processar dados, mas não a observar a lenta metamorfose de uma paisagem ou a nuance de expressão em um rosto humano. O olhar moderno é impaciente: se a imagem não entrega seu significado em três segundos, ela é descartada pelo movimento nervoso do polegar sobre a tela.
A contemplação exige uma demora que o sistema atual abomina. Contemplar é um ato de resistência contra a pressa. Quando deixamos de olhar com profundidade, a realidade torna-se bidimensional. O outro deixa de ser uma alma complexa para virar um perfil, um objeto de julgamento ou um obstáculo no caminho. A estética da pressa matou a ética da atenção.
Na pele de quem escreve, entendo que a literatura nasce dessa espera. O artista é aquele que se permite ser ferido pela realidade antes de traduzi-la. Mas como produzir arte ou pensamento crítico em um solo onde ninguém mais para? A beleza, para ser percebida, exige uma certa “hospitalidade do olhar”. É preciso dar lugar ao que se vê, sem a urgência de categorizar, fotografar ou postar.
Recuperar a visão é, portanto, um projeto educativo e espiritual. Precisamos aprender novamente a olhar para o céu sem procurar a previsão do tempo, e a olhar para o próximo sem procurar uma utilidade. Somente quando o olhar descansa é que a alma começa a ler o que as palavras não dão conta de dizer.
A verdadeira alfabetização do século XXI não será digital, mas humana. Será o retorno à simplicidade de quem sabe que, para entender a vida, é preciso, antes de tudo, ter a coragem de simplesmente olhar.
Iares Ibero Sombra
Mestre em Educação, jornalista e escritor. Colaborador da Gazeta do Povo. Explora as tensões entre cultura, ética e a condição humana.
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