O Disco de Ouro Que Nunca Foi Sobre a Música | Iares Ibero Sombra
Ensaio

O Disco de Ouro Que Nunca Foi Sobre a Música

As pessoas não escolhem o que fazem. Só repetem o que aprenderam a ser.

Iares Ibero Sombra · 4 min de leitura

Eu tinha dezenove anos e estava sentado num corredor de rádio, esperando não sei mais o quê, quando ouvi um compositor conhecido fazer contas em voz alta. Não eram contas de melodia, nem de verso. Eram contas de disco de ouro — quantas cópias faltavam, quanto tempo levaria, quanto renderia. Ao redor dele, técnicos e músicos assentiam, como quem confirma uma verdade óbvia demais para ser discutida. Ninguém ali mencionou a canção. Ninguém perguntou se ela era boa. Eu não disse nada. Só estranhei — e o estranhamento, décadas depois, ainda não foi embora.

Não indignação. Estranhamento é diferente: é a sensação de estar vendo algo que todos os outros deixaram de ver, porque já naturalizaram. E o que eu via, sem saber nomear com dezenove anos, era isto: para aquele homem, a arte tinha virado consequência de uma meta, e não o contrário. O disco de ouro não media a canção. A canção existia para produzir o disco de ouro.

Aristóteles fazia uma distinção que a maioria de nós esqueceu de fazer: entre práxis, a ação cujo fim está no próprio agir, e poiésis, a atividade orientada à produção de algo que lhe é exterior. A primeira não pede desculpas a nada fora de si — não precisa de recompensa externa para justificar sua existência. A segunda é sempre meio: produz algo que a ultrapassa, algo que permanece fora do próprio gesto que o criou. E o problema não está em produzir — todos precisamos, ninguém vive de ar — o problema é quando a poiésis engole a práxis, e a pessoa deixa de perceber a diferença entre os dois.

Talvez isso não seja uma falha de caráter. Talvez seja, como suspeito sem ter certeza — porque ainda perscruto minha própria natureza antes de arriscar entender a alheia — algo mais parecido com condição do que com escolha. As pessoas não amanhecem decidindo colocar o benefício antes do sentido. Elas simplesmente não têm mais silêncio suficiente para perceber que estão fazendo isso. E o que rouba esse silêncio não é o excesso de trabalho, nem a falta de tempo livre, como qualquer diagnóstico preguiçoso diria. O que rouba é mais sutil e mais covarde: são as verdades dos outros, e a aceitação nelas.

Vivemos dentro de um mundo que dita. Dita o que vale, o que rende, o que é sucesso, o que é fracasso. E dentro desse mundo, cada comunidade, cada família, cada pessoa cria seu próprio mundo pequeno de crenças — que, com o tempo, se cristalizam como se fossem realidade, e não construção. Ninguém escolhe essas crenças com deliberação; elas se instalam devagar, pela repetição, até parecerem óbvias demais para serem questionadas — do mesmo jeito que o disco de ouro parecia óbvio demais, naquele corredor, para qualquer um ali além de mim. Discordar dessas verdades emprestadas custa caro. Custa pertencimento. Custa ser convidado. Custa ter alguém que ligue para perguntar se você está bem. Já paguei esse preço, e sigo pagando, todos os dias — não por infortúnio, por escolha repetida: prefiro não dissimular quem não sou para ser aceito por quem não me conhece. Não é sacrifício. É apenas o que tenho hoje, em troca do que não quis ter.

A história me oferece um exemplo maior que qualquer coisa que eu possa oferecer da minha própria vida: o povo teve diante de si uma escolha entre aquele que trazia uma verdade que desorganizava suas certezas e aquele que representava algo que já conhecia. Preferiu Barrabás. Não por maldade — talvez por familiaridade. É mais fácil escolher o que já se conhece, mesmo quando o que já se conhece não serve, do que arriscar o desconforto de uma verdade nova.

Isso não é motivo para condenar quem escolhe o benefício antes do sentido. Este texto não julga — observa. E observar sem julgar é, talvez, o único gesto verdadeiramente honesto que resta a quem ainda tenta entender por que fazemos o que fazemos. A pergunta nunca foi “dinheiro ou propósito”, como se fosse uma escolha binária e moralizável. A pergunta é mais simples e mais incômoda: as pessoas fazem o que fazem porque aquela é a sua verdade — porque são aquilo que são naquele momento? Certo? Errado? Não sei. Estou na minha.

Pense em como você assiste a um filme pela primeira vez. Você simplesmente assiste — entregue ao momento, degustando a cena como ela vem — ou você narra o tempo inteiro, por dentro, o que aquele filme deveria ser, o que aquele personagem deveria fazer, o que você teria feito diferente? A resposta a essa pergunta boba talvez diga mais sobre como você vive do que qualquer resposta que você daria se eu perguntasse diretamente por que você faz o que faz.

Porque a pergunta que realmente importa nunca foi essa. A pergunta é: quem você está sendo? Você — ou o que vê, acredita e, por conseguinte, replica?

Iares Ibero Sombra, jornalista, escritor e ensaísta

Iares Ibero Sombra

Jornalista • Escritor • Mestre em Educação

Colaborador do jornal Gazeta do Povo. Desenvolve ensaios sobre comportamento, consciência e liberdade na era contemporânea, com uma abordagem que une análise crítica e reflexão existencial.

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