O hoje desperta em nove de junho, estende-se como um tapete dourado sob meus pés, e eu sigo pelo trajeto já conhecido, pelo caminho de toda segunda-feira. Há algo de sagrado nesses passos repetidos —não pela monotonia, mas pelo rito que se desenha na marcha cuidadosa. Não sei ao certo quantos quilômetros percorro, pois medi-los seria limitar sua essência. Apenas sigo, como quem atravessa um instante entre dois mundos: aquele da escola, onde compartilho conhecimento e escuto vozes jovens e vibrantes, e aquele do retorno, onde me permito ser aprendiz da existência.
Gosto de dizer aos meus alunos que há dois momentos mágicos na segunda-feira: o instante em que chego à escola e o instante em que volto para casa. Não porque os minutos entre esses dois extremos sejam menos preciosos — ao contrário! É que, na travessia, há um encanto diferente, um silêncio ruidoso que me ensina sobre o tempo e sobre a vida.
Enquanto caminho, percebo o que talvez passe despercebido por olhos apressados. As árvores dançam com a brisa, em um movimento que se assemelha a despedidas e reencontros. Os carros seguem seus destinos, indiferentes à poesia da rua. Jovens alunos emergem dos portões da escola, alguns correndo como se fossem donos da pressa, outros conversando sem perceber que estão esculpindo memórias. Ah, juventude! Como é belo o frescor dos anos que ainda não carregam o peso das preocupações.
Diminuo meus passos, permito-me saborear o instante como quem se entrega ao último sorvo de um café quente. Todo tempo, afinal, é o último, e compreender isso é viver com intensidade sem afobação, com entrega sem desespero. Sinto o calor do sol que já não arde, apenas acaricia. O vento, que às vezes sopra forte, ora é só uma carícia passageira. O cheiro do mar chega como um convite, lembrando-me que a vida é vastidão e mistério.
E então vêm os olhares — alguns curiosos, outros desinteressados. Mas todos, de alguma forma, tecem comigo esta cena cotidiana. Somos personagens de uma crônica que se reescreve a cada segunda-feira, mas nunca é a mesma. No percurso entre escola e casa, entre ensinar e aprender, entre observar e sentir, vou descobrindo que o caminho é tão essencial quanto o destino.
Iares Ibero Sombra
Mestre em Educação, jornalista e escritor. Colaborador da Gazeta do Povo. Analisa a cultura e a liberdade na era digital. iares.com.br