Estava pensando. Não por impulso, não como distração, mas como quem suspende o tempo para que a consciência ocupe o espaço. Pensava se somos aquilo que acreditamos ser ou se estamos apenas encenando o papel que nos disseram que é nosso. Essa dúvida não é nova, mas insiste em retornar como quem nos provoca a rever o que chamamos de “eu”. E talvez a pergunta mais inquietante não seja sobre o que somos, mas sobre o quanto de nós é realmente nosso.
Há uma linha tênue entre o que escolhemos acreditar e o que nos foi imposto como crença. Afinal, crescemos cercados de palavras, definições e olhares que nos vestem com expectativas. Desde pequenos, dizem o que somos — “inteligente”, “difícil”, “sensível”, “estranho”, “bom menino”, “incompreensível”. Mas será que essas palavras nos traduzem ou nos travam?
O olhar alheio é uma lente. Mas lentes podem distorcer. Elas moldam uma versão de nós que, frequentemente, não nasce da verdade, mas da necessidade de quem nos observa. Existem interesses por trás de muitos discursos que tentam definir quem somos. Eles pintam possibilidades, não para nos revelar, mas para nos redesenhar de acordo com o que esperam receber. É quase uma barganha silenciosa: nos dizem o que somos e esperam que sejamos aquilo que serve ao desejo deles.
Isso é inquietante. Porque se essas definições não vêm da nossa essência, então tudo o que constroem ao nosso redor é sombra, não substância. É projeção, não presença. E nessa lógica, a nossa identidade se torna refém de opiniões que não são nossas — opiniões que dizem mais sobre quem as emite do que sobre quem somos.
Nesse cenário, há uma despersonalização cruel. Vamos nos esquecendo do centro. Do ponto imóvel que observa sem se contaminar. E quando buscamos esse núcleo, essa essência que permanece mesmo quando tudo nos é retirado — descobrimos a consciência. Não a consciência como atributo intelectual, mas como estado puro de ser. Aquela presença silenciosa que vê sem julgar, que sente sem se confundir, que é sem precisar justificar.
Ser consciência é recusar os moldes, é descondicionar a existência. É entender que não somos a somatória das opiniões que nos cercam, nem a performance esperada por quem projeta desejos em nós. Somos o espaço entre o ruído. O silêncio que acolhe. A luz que observa.
E isso nos liberta. Porque quando reconhecemos que somos consciência, deixamos de tentar caber em definições que sempre foram estreitas demais. E começamos, enfim, a existir por inteiro — com nossas contradições, profundidades e vazios legítimos. Sem a ânsia de agradar, sem o fardo de corresponder.
Talvez seja esse o caminho: descascar as camadas impostas, remover os adesivos identitários que colaram em nossa pele, e retornar ao que sempre esteve ali — uma presença viva que não precisa ser nomeada para ser real.
Somos somente consciência. E, ao contrário do que parecem nos dizer, isso não é pouco. É tudo.
Autor: Iáres Souzà