A normalização da indiferença
Não podemos abraçar o mundo inteiro nem resolver, sozinhos, os dramas humanos que encontramos pelo caminho. Ainda assim, há algo inquietante no tempo em que vivemos: a indiferença parece ter se tornado um comportamento comum, quase banal.
A insensibilidade diante do sofrimento alheio já não causa o espanto que deveria. Aos poucos, ela foi sendo incorporada à rotina das cidades. Caminhamos pelas ruas, observamos situações duras, vidas marcadas por carências elementares, e seguimos adiante como se aquilo fosse apenas parte inevitável da paisagem urbana.
Basta um olhar minimamente atento para perceber a dimensão do problema. Pessoas vivendo nas ruas, enfrentando dificuldades básicas de alimentação, abrigo e dignidade. Situações que não exigem apenas compaixão momentânea, mas sobretudo respostas concretas e políticas públicas capazes de enfrentar o problema com seriedade.
O que frequentemente se observa, no entanto, é um contraste desconfortável entre o discurso e a realidade. Anunciam-se políticas, programas e iniciativas que, no papel, parecem promissoras. Na prática, porém, grande parte dessas medidas pouco altera a vida daqueles que enfrentam diariamente a precariedade das ruas.
Enquanto isso, a presença constante dessa realidade vai sendo assimilada como parte da paisagem urbana. O que deveria provocar inquietação acaba se tornando apenas mais um elemento do cenário cotidiano — algo que se vê, mas que raramente mobiliza uma reação mais profunda.
Talvez o aspecto mais preocupante não seja apenas a persistência desses problemas, mas a maneira como nos acostumamos a eles. Quando a miséria deixa de causar incômodo, algo essencial começa a se desgastar silenciosamente: a nossa própria capacidade de reconhecer o outro.
Nenhuma sociedade permanece saudável quando a indiferença se torna regra. A superação desse quadro exige políticas públicas mais eficazes, sem dúvida. Mas exige também algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: a disposição de não aceitar como normal aquilo que fere a dignidade humana.
Porque, mesmo que não possamos abraçar o mundo inteiro, ainda podemos preservar algo fundamental — a capacidade de não nos tornarmos indiferentes a ele.
Iares Ibero Sombra
Mestre em Educação, jornalista e escritor. Colaborador da Gazeta do Povo. Explora as tensões entre cultura, ética e a condição humana.
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