Único caminho: Estranhamento diante da Inércia: Por que insistimos no erro?
O estranhamento começa onde a lógica termina. Como observador do mundo, percebo um padrão que desafia a razão: a persistência no erro, mesmo quando a natureza do equívoco é absolutamente clara para quem o pratica. Não falo aqui de uma falha técnica ou de uma lacuna de informação; refiro-me àquele momento em que o indivíduo, munido da plena consciência sobre o que é certo, opta deliberadamente pelo que o fere ou fere o outro.
Essa inércia da vontade causa um espanto constante. É uma contradição humana profunda, como se a pessoa estivesse brincando de ser um observador externo da própria vida, ignorando que cada gesto reverbera no tecido da convivência. Todos bebemos da mesma água no que tange aos fundamentos da natureza humana; por isso, quando alguém escolhe ignorar o valor da liberdade do próximo ou a preservação da vida, sinto um descompasso. Existe um leito comum onde a ética deveria fluir, mas que é obstruído por uma escolha reativa.
A imagem que sintetiza esse abismo é a de alguém com uma condição de saúde que exige disciplina, mas que, diante do proibido, escolhe ceder ao prazer imediato. O corpo e a consciência conhecem o risco, mas a necessidade de momento — seja por medo ou pela preguiça de mudar — anula a compreensão do longo prazo. É o abismo entre o protocolo, que é o saber frio e impessoal, e a essência, onde a mudança deveria ocorrer. Enquanto o conhecimento não toca nossa essência, ele é apenas ruído.
O erro é humano e natural; não devemos desperdiçar energia na culpa, pois é ela que nos mantém paralisados. Quando a tempestade leva as telhas da casa, lamentar o vento não resolve a situação. É preciso aceitar a responsabilidade, subir no telhado e estender uma lona — um improviso necessário — enquanto buscamos a solução definitiva. Ninguém precisa assistir à sua reconstrução. Seja franco consigo mesmo. A responsabilidade é o único caminho que nos devolve a capacidade de caminhar, transformando o estranhamento diante do erro na coragem de, finalmente, ajustar a rota.
Será que insistimos no erro por termos medo ou preguiça de mudar, pois dá trabalho?