O caminho sem fim

Acordo antes mesmo de o sol se levantar completamente. Há um vazio no ar, um silêncio que carrega consigo a promessa de mais um dia repetido. A rotina me chama, como um roteiro antigo que eu sigo à risca, não por vontade, mas por hábito. O banho gelado, esse choque de realidade diário, não é apenas um despertar físico, mas um lembrete do que é estar vivo. Talvez viver seja isso — um constante despertar para o que não se quer enfrentar, para o que se repete. A água que desce pelo corpo parece limpar o cansaço da noite, mas nunca as dúvidas que habitam a mente.

O café da manhã, uma cerimônia sem graça, acontece quase sem que eu perceba. O paladar está dormente, insensível, como se até o gosto das coisas fosse ofuscado pela repetição dos dias. O que resta é o movimento, o corpo que se coloca em ação, mesmo quando a alma parece hesitar. Desço as escadas, que nunca contei com exatidão: 13 ou 17 degraus, talvez. Na verdade, tanto faz. Às seis e trinta e sete da manhã, as pernas já sabem o caminho, como se fossem programadas para isso. O portão me aguarda. Sempre o mesmo portão. Sempre a mesma despedida silenciosa, que ecoa como um “até logo” que não se precisa dizer, mas que é inevitável. A promessa de retorno às 17h paira no ar como uma sombra, uma lembrança de que o ciclo, por mais estranho que seja, continua.

O sol, impiedoso, já está alto, mesmo tão cedo. A manhã traz consigo um calor que não deveria existir, mas ali está, como tudo o mais. As pessoas passam por mim com pressa, com olhares vazios, fixos em algum ponto distante que, na verdade, não existe. Ninguém se vê. Ninguém se percebe. O que estamos buscando? Há momentos em que um “bom dia” escapa dos lábios de alguém, mas é um gesto automático, quase mecânico. Como um eco de tempos mais gentis, mas que agora soa vazio, sem alma.

O trânsito se desenrola à minha frente como uma metáfora cruel. Carros presos em um movimento lento, sem saída clara, todos esperando algo. Algo que ninguém sabe ao certo o que é, mas que todos acreditam que chegará. E enquanto o asfalto e o concreto me cercam, procuro conforto nas poucas árvores que insistem em existir. Resistem ao caos, assim como eu. Quando não há mais árvores à vista, olho para o céu. Esse, ao menos, permanece imenso, livre, indiferente à correria de nós, mortais. O céu é meu refúgio. Ele me lembra que, por mais insignificante que tudo pareça, há algo maior. Sempre há.

Mas mesmo esse consolo tem um limite. A realidade machuca. Ela pesa nos ombros, nos olhos cansados de ver o mesmo todos os dias, nas mentes exaustas de pensar em soluções que nunca chegam. O que precisa ser feito, no fim das contas, quase nunca é o que se quer. E esse é o fardo de existir. Cada escolha que fazemos não carrega só a possibilidade de mudança, mas também a dor daquilo que sacrificamos. A liberdade que imaginamos está condicionada a tantas coisas, tantas obrigações, tantos desencontros.

Sigo andando. O caminho é sempre o mesmo, mas minha mente viaja por outros lugares, outros tempos. Me pergunto se o sentido da vida está nessa repetição, nessa marcha constante para o que parece ser um fim previsível. Talvez ainda não tenha visto o que preciso ver. Talvez a vida me reserve algo que só se revela quando estou pronto para entender. Mas, por enquanto, tudo parece uma névoa densa, que distorce as formas, que me impede de enxergar com clareza. A realidade pesa, mas talvez seja apenas um véu que preciso ultrapassar.

Descendo as escadas, cruzando o portão, enfrentando o calor e o trânsito, sempre olhando para o céu — assim a vida segue. E, no entanto, algo dentro de mim não consegue aceitar que essa é a única maneira de viver. Existe algo mais, eu sinto, algo que me escapa, que se esconde entre os detalhes, nas pequenas coisas que o ritmo apressado da rotina me impede de perceber. A rotina é como um rio que corre sempre para o mesmo lugar, mas e se, em vez de seguir a corrente, eu mergulhasse nas profundezas? O que encontraria lá?

Talvez o verdadeiro despertar não esteja no banho gelado ou no café da manhã, mas na coragem de interromper o ciclo. De olhar para o portão que se despede de mim todas as manhãs e ver nele não um lembrete da volta inevitável, mas uma oportunidade de sair. De sair de mim mesmo, do que fui condicionado a aceitar como normal. Há uma faísca de esperança na monotonia. Algo me diz que a vida, mesmo que pareça sem sentido às vezes, é mais do que esse caminho diário. Ela me chama, de formas sutis, para um entendimento maior, para algo que transcende o óbvio.

Eu sigo. Ainda sem todas as respostas, ainda preso à rotina. Mas, talvez, só talvez, haja algo além do portão que vejo todos os dias. Algo que, quando eu estiver pronto para enxergar, me mostrará que o caminho não termina onde penso. Ao contrário, ele está apenas começando.

Autor: Iáres Souzà

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