Como a pressa nos afasta do presente: Reflexões sobre o tempo e a vida

Por muito tempo, caminhei com pressa. Não a pressa que move os pés, mas a que invade a mente e envenena o espírito, a que nos torna reféns de uma corrida invisível, como se a vida fosse uma maratona para a qual não nos preparamos, mas ainda assim insistimos em correr. Eu estava sempre um passo à frente de mim mesmo, perseguindo o que acreditava ser o “próximo”. Próximo compromisso, próxima conquista, próximo destino. Mas, enquanto corria para o que vinha, deixava para trás o que era. A cidade, que tantas vezes me acolheu, tornara-se um cenário sem cor, uma sequência de quadros desconexos que eu atravessava sem realmente ver.

Lembro-me de caminhar pelo calçadão da orla marítima, um lugar onde tantos encontram refúgio, mas para mim era apenas um caminho. O mar, vasto e insondável, estava ali, a poucos metros, mas seus segredos não me pertenciam. Suas ondas quebravam incessantemente, mas eu não as ouvia; suas águas me chamavam, mas eu não as sentia. E a brisa, que gentilmente tocava o rosto dos que passavam, parecia ignorar a minha presença. Não era a brisa que me faltava, eu que não estava realmente ali. A sensação de caminhar, de seguir em frente, era uma mentira que eu contava a mim mesmo. Meu corpo avançava, mas minha alma estava perdida.

Com o passar do tempo – sempre ele, o tempo –, algo começou a mudar em mim. Percebi que essa pressa não era sinônimo de progresso, mas de fuga. Eu não sabia de quê estava fugindo, talvez daquilo que eu já era, ou do que temia me tornar. E foi só quando caí que compreendi a profundidade dessa ilusão. Não foi uma queda física, dessas que deixam marcas visíveis, mas uma queda interna, um colapso silencioso, como o desmoronamento de uma ponte que, ao longo dos anos, teve suas fundações corroídas. A verdade é que eu já estava no chão havia muito tempo, mas, na correria de uma vida que eu não entendia, sequer percebi.

Foi então que compreendi: a vida não é sobre correr. Nunca foi. A vida não se mede em velocidade, metas alcançadas ou listas riscadas. Ela simplesmente é. Tentamos constantemente encaixá-la em moldes, dar-lhe sentido, controlá-la como se fosse um roteiro que podemos reescrever à vontade. Mas a vida escapa, se dissolve entre os dedos, porque, no fundo, ela não deve ser compreendida. Ela deve ser sentida. E o maior erro que cometemos é acreditar que a vida só acontece em grandes momentos, em conquistas épicas ou em respostas definitivas. A verdade é que a vida acontece nos interstícios, nos espaços entre um acontecimento e outro. Ela está no silêncio entre as ondas, no breve instante em que a brisa toca a pele, no sorriso passageiro de um desconhecido que cruzamos na rua.

Ao perceber isso, compreendi que a pressa não me levaria a lugar algum. Pelo contrário, ela me impedia de chegar aonde eu realmente precisava estar: no presente. Porque a vida, no seu movimento incessante, não espera que estejamos prontos. Ela acontece enquanto estamos distraídos, enquanto corremos sem rumo, sem saber que o verdadeiro destino não está lá na frente, mas aqui, agora.

Aprendi, então, que não preciso parar de andar. Caminhar faz parte da vida, e o movimento é essencial. Mas agora entendo que o mais importante não é para onde estou indo, mas como estou indo. Andar com presença, sentir cada passo, estar consciente do chão sob meus pés, do ar que respiro, do mundo que vibra ao meu redor. O mar que antes eu ignorava, agora me fala. Suas ondas, que parecem repetitivas, na verdade nunca são as mesmas. A brisa, que antes não tocava minha pele, agora me abraça. E, mais do que isso, percebo que, ao estar presente no mundo, finalmente estou presente em mim.

Entendi que, por mais que caminhe por aí, o lugar mais importante onde devo estar é dentro de mim mesmo. A pressa me afastou da vida porque me afastou de mim. Estava sempre em busca de algo lá fora, sem perceber que o que realmente buscava estava dentro. E agora, ao caminhar, permito-me estar onde estou, sentir o que sinto, ser quem sou, sem pressa, sem expectativas. Porque o tempo, esse velho companheiro, sempre seguirá seu curso, silencioso, impassível. Mas, se estou presente, se estou realmente aqui, então o tempo, ao invés de me dominar, se torna meu aliado.

A vida, afinal, não é o que pensamos que ela deve ser. Ela não é um destino a ser alcançado, uma meta a ser cumprida, um enigma a ser decifrado. A vida é um fluxo, um mistério que jamais entenderemos completamente. E, talvez, não precisemos entender. Precisamos apenas vivê-la, com a presença de quem sabe que o único momento que existe de verdade é este: o agora.

Caminhar pela cidade, pelo calçadão, pelo mundo, não é mais uma fuga. É uma escolha. E, ao caminhar, estarei onde devo estar. Não importa o que o futuro reserva, pois estarei aqui, comigo, vivendo.

Autor: Iáres Souzà

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