Hoje é domingo, e não me ocorre nenhum assunto em especial. Talvez o seu dia esteja assim também, meio sem rumo, vagando ao sabor do acaso. Então, resolvi deixar as palavras surgirem, como quem abre a janela e deixa o vento entrar. É o que faço aqui, no meu sobrado, onde já moro há 29 anos. Tantos anos que parecem uma eternidade, mas ao mesmo tempo, são tão fugazes como as brisas que agora roçam minha pele.
Estou no quarto, digitando enquanto sinto essa brisa agradável. O vento entra delicado, mas sempre com um toque de persistência, como se estivesse sussurrando algo que eu ainda não consigo entender. Coloquei um fio grosso de algodão para segurar a janela – nem muito aberta, nem fechada demais. Descobri que assim o vento do mar vem com mais força, percorre o corredor e alcança minha janela com uma presença que só ele sabe ter. É como se o mar, lá embaixo, quisesse me lembrar que ainda está lá, mesmo que eu, em alguns momentos, me esqueça dele.
Ouço cachorros latindo ao longe. Não me incomoda. Na verdade, é um som que já virou parte dessa serenidade. O que para muitos pode parecer uma prisão da rotina, para mim é uma liberdade tranquila. A paz que encontro aqui é minha companheira, não uma tortura. Ela me permite refletir com calma, fora do caos, fora do fluxo desgovernado que vejo por aí. Pra mim, rotina nunca é apenas rotina. É uma página em branco esperando ser escrita todos os dias.
Você tem o poder de moldar a sua rotina, de fazer com ela o que bem quiser, se assim desejar. Eu escolho os livros, a escrita, e aquilo que considero boa música – ao menos para os meus ouvidos. Cada um constrói sua própria verdade, e a minha, neste exato momento, está aqui: entre o som suave das teclas e o murmúrio do vento.
Mais tarde, talvez eu caminhe pela praia. Às vezes vou com meu filho, Ian; outras vezes, vou sozinho. Há algo de reparador nessas caminhadas, como se o mar limpasse os pensamentos que se acumulam durante o dia. Moro na rua de cima, e daqui dá para ver o mar ao longe, uma linha no horizonte que me lembra que o mundo é maior do que qualquer preocupação. Na rua de baixo, o mar está bem mais perto. Mas é aqui, na rua de cima, onde o vento faz curvas nas esquinas e a vida segue, aparentemente calma, que me sinto mais à vontade
O bairro em que vivo parece ser calmo à primeira vista, mas a insegurança ainda é uma sombra que paira, como em tantos lugares do Brasil. É um paradoxo, não? Estar tão perto da paz e, ao mesmo tempo, saber que ela é frágil, que pode se quebrar a qualquer momento. Mas não deixo que isso me tire o prazer de estar aqui, de ver a beleza nas coisas simples, nas ruas que percorro há tantos anos, no som das ondas que ressoam ao longe, e até mesmo no vento que, com sua insistência, parece sempre me convidar a continuar.
E assim, entre uma brisa e outra, entre os latidos e o silêncio, vou escrevendo o que o domingo me oferece. O dia vai se construindo sozinho, sem pressa, com um toque de aleatoriedade que, no fundo, faz todo o sentido. Porque, no final das contas, somos todos assim: navegando no improvável, enquanto tentamos decifrar os ventos que nos conduzem.
Autor: Iáres Souzà