Hoje, 15 de janeiro de 2025, a chuva fez uma pausa. Talvez por cansaço, como quem se retira para renovar as energias antes de voltar com mais intensidade. Fortaleza tem sido inundada, conforme os noticiários informam, e minha mente se preenche com imagens de pessoas lutando contra as águas em áreas de risco, improvisando esperanças em abrigos precários que mal suportam o tempo, quanto mais a fúria da natureza.
Desci as escadas do sobrado e me aventurei até o mercadinho próximo. Enquanto caminhava, observei a cena ao meu redor — a rua, as pessoas, a vida — e tudo parecia simultaneamente igual e diferente. Há uma ironia silenciosa no começo de um novo ano. “Ano novo, vida nova”, dizem, como se o calendário fosse uma espécie de mágico. No entanto, os cachorros da casa em frente ainda latem e se agitam, prisioneiros de um espaço pequeno demais para conter o instinto de liberdade que pulsa neles. Seus donos, talvez com boas intenções, não percebem que o que chamam de proteção é, na verdade, uma prisão.
A rua, tão familiar, ainda reserva surpresas. A árvore na esquina, plantada por meu pai, sofreu uma poda drástica. Suas folhas, que antes abrigavam passarinhos e ofereciam sombra para conversas rápidas, agora são um corte seco na paisagem, como se a vida ali tivesse sido amputada. Mais um detalhe perdido no mosaico de mudanças que se escondem sob a aparência do “tudo igual”.
No caminho, encontrei rostos conhecidos, aqueles que me cumprimentaram calorosamente no Natal e no Ano Novo. Mas hoje, seus olhares desviaram dos meus, como se nos ignorarmos fosse a melhor forma de coexistir. É a hipocrisia das felicitações protocolares, embrulhadas em papéis brilhantes que escondem o vazio do gesto. Todos carregamos nossos egos inflados como escudos, nossas próprias mazelas bem guardadas, mas poucos têm a coragem de confrontá-las.
E eu? Não nego meus defeitos. Eles estão aqui, comigo, como marcas que tento lapidar. Às vezes falho, é verdade, mas procuro olhar para dentro e ajustar o que posso, mesmo que a vida insista em me atropelar com sua rotina cíclica.
Por mais que tudo pareça igual, sei que não somos os mesmos. Nem eu, nem você, nem aqueles que cruzaram meu caminho hoje. Mudamos de forma sutil, quase imperceptível, como uma árvore que cresce milímetros ou um rio que, aos poucos, altera seu curso. A diferença é que muitos ainda não percebem essa transformação, presos na ilusão de que estão imóveis enquanto o mundo gira.
A vida segue. E isso é tudo o que ela faz. Sem promessas, sem garantias. Cabe a nós escolher se queremos apenas sobreviver às chuvas ou aprender a dançar com elas.
Autor: Iáres Souzà