O diploma e o deserto intelectual
Há uma cena que se repete com uma frequência quase melancólica nos corredores das instituições que frequento. Recentemente, conversando com um profissional ostensivamente titulado — alguém cujas paredes provavelmente exibem uma coleção respeitável de diplomas em molduras douradas — vi o pensamento vacilar diante de uma metáfora simples, dessas figuras de linguagem que, em outras épocas, qualquer leitor de clássicos compreenderia ainda na adolescência.
O que testemunhei ali não foi apenas um lapso de memória ou um momento de cansaço intelectual. Foi algo mais revelador: a impressão súbita de um deserto. Diante da história do próprio país ou de um conceito que exigisse um mínimo de imaginação simbólica, aquele “doutor” parecia intelectualmente desamparado.
O diploma sem compreensão
Como jornalista e alguém que transita com frequência entre universidades e escolas, percebo que o diploma se transformou, muitas vezes, em pouco mais do que um papel carimbado. Quando o indivíduo não aprende, de fato, a compreender a realidade ou a elaborar respostas para os dilemas da vida, o título acadêmico perde o seu significado mais profundo.
O que encontramos, não raramente, são adultos plenamente formados no corpo, mas intelectualmente imaturos — quase como crianças de dez anos no que diz respeito ao mobiliário da inteligência. Homens e mulheres que executam tarefas com eficiência, mas que parecem não compreender plenamente o que fazem, nem por que o fazem.
Operam a realidade como máquinas bem ajustadas, porém interiormente silenciosas.
A educação transformada em fábrica de certificados
Nossas instituições modernas — das escolas técnicas às universidades mais prestigiadas — converteram-se, em grande medida, em fábricas de certificados. A lógica que as orienta lembra a de uma engrenagem industrial que pouco se interessa pela formação da alma ou pelo cultivo da alta cultura.
O foco deslocou-se quase inteiramente para a aquisição de competências técnicas. Instalou-se, sem grande alarde, uma espécie de utilitarismo pedagógico: se um conhecimento não pode ser rapidamente convertido em lucro, produtividade ou eficiência administrativa, ele passa a ser visto como dispensável.
O resultado é a formação de uma elite técnica que domina perfeitamente o “como”, mas permanece estranhamente distante do “porquê” e do “para quê” das próprias ações.
Educamos para o mercado, mas empobrecemos a consciência.
Especialistas sem visão de mundo
Essa constatação traz consigo uma inquietação que me toca de maneira muito pessoal. Como pai e alguém que atua no campo da educação — embora o próprio termo “educador” tenha se desgastado tanto que hoje o utilizo com certa cautela — não consigo deixar de perguntar que tipo de mundo esses especialistas estão ajudando a construir para os nossos filhos.
Estamos, em alguma medida, entregando o volante da civilização a indivíduos que possuem a perícia de um piloto, mas desconhecem os mapas, ignoram as estrelas e parecem pouco interessados em saber para onde a viagem deveria seguir.
O perigo de uma sociedade dirigida por especialistas culturalmente estreitos é que eles dificilmente percebem a proximidade do abismo.
O pensamento pronto da modernidade
A própria modernidade contribui para esse empobrecimento. Vivemos numa época em que quase tudo nos chega pronto. O pensamento, como tantas outras coisas, foi transformado em um produto de consumo rápido.
Já não se aprende a preparar o bolo; compra-se o pacote pronto na prateleira.
Pensar tornou-se raro porque exige atravessar zonas de desconforto: enfrentar o vazio inicial, suportar a dúvida e realizar o esforço paciente da síntese.
Em vez disso, as opiniões chegam embaladas em fórmulas prontas — amplificadas pelas redes sociais — e o indivíduo considerado “instruído” limita-se a escolher qual delas melhor se ajusta ao seu grupo de pertencimento.
A verdadeira liberdade de pensamento depende de uma musculatura mental que o ensino utilitarista, pouco a pouco, foi deixando atrofiar.
O retorno necessário aos clássicos
Talvez por isso eu defenda — sem pedir desculpas pelo aparente anacronismo — um retorno deliberado aos clássicos, ao valor do silêncio intelectual e à educação que realmente liberta a inteligência.
Precisamos recuperar o sentido mais profundo do aprendizado. Se não reaprendermos a conviver com a leitura exigente, com a contemplação e com a reflexão paciente, corremos o risco de nos tornar intelectualmente mais frágeis a cada geração.
A educação não pode reduzir-se a um treinamento para a sobrevivência econômica; ela precisa ser, antes de tudo, o acendimento de uma luz que permita ao ser humano enxergar para além das aparências.
Somente assim poderemos garantir que nossos filhos herdem algo mais valioso do que diplomas: uma inteligência viva e uma alma capaz de reconhecer a verdade quando ela finalmente se apresenta.