O Brasil Funciona Assim
Como o Brasil funciona na prática não é um mistério — é um sistema que opera como foi permitido, ou ao menos como vem sendo tolerado.
O começo
Futuro não existe sem um presente bem feito.
Terra arada parece feia. Tudo revirado, tudo destruído. No entanto, quem passa ao lado e não conhece a terra pode supor que houve erro. Já quem conhece sabe que ali pode nascer alguma coisa.
O Brasil tem muitos arados. Porém, nem sempre há, na mesma medida, quem saiba o que fazer com eles.
O gestor invisível
Existe um tipo de gestor que o sistema nem sempre acomoda bem. Ele não tem manual, não tem trâmite e não tem paciência para esperar o sistema fazer o que dificilmente fará no tempo necessário. Ainda assim, ele tem julgamento. E, no Brasil, julgamento por vezes soa como subversão.
Pense numa escola pública com uma vaga de professor parada. O trâmite correto pode levar semanas. No entanto, a escola não pode esperar semanas. Os alunos não podem esperar semanas. Então alguém decide agir dentro do que é possível — e necessário.
Nem sempre se trata de desonestidade. Em muitos casos, trata-se de fazer o que precisa ser feito — e não apenas o que está formalmente previsto. A diferença entre essas duas coisas pode separar o gestor ágil do gestor corrupto, embora nem sempre essa distinção seja percebida com clareza.
A lógica do sistema
A burocracia rígida não existe apenas porque alguém um dia decidiu que era o melhor sistema. Em grande medida, ela também se sustenta por concentrar poder. Não necessariamente por certo ou errado, mas por conveniência estrutural.
Por isso, quem paga o preço são, com frequência, os mesmos: os invisíveis do processo.
Há um personagem que muitos reconhecem. Ele sabe exatamente quantos feriados prolongados cabem em uma semana e monitora o calendário com precisão.
Ele não é exatamente um acidente do sistema. Em certa medida, ele exemplifica o sistema em funcionamento.
Mudanças estruturais raramente se explicam por uma única figura.
A expectativa de que alguém resolverá tudo pode ser confortável — e talvez por isso persista.
Onde está a mudança
O que transforma um país dificilmente é um evento isolado. É uma mentalidade que se acumula em silêncio — como letras que formam palavras, palavras que formam frases e assim por diante.
Assim, a mudança tende a começar na unidade mínima.
O Brasil não parece estar travado apenas por falta de leis. Pelo contrário, há leis em abundância — mais do que a capacidade real de cumprimento. Também não está paralisado apenas por falta de recursos.
Em grande parte, parece ter construído um ambiente que, por vezes, desincentiva quem age e tolera quem se omite.
Entender como o Brasil funciona na prática talvez exija abandonar a ideia de que o sistema falha o tempo todo.
O cidadão
No Brasil, não raramente, fazer o certo com rapidez pode soar suspeito — enquanto esperar tende a parecer seguro.
Assim, a exceção pode, com o tempo, aproximar-se de regra.
E o cidadão que assiste a tudo isso? Há quem se sinta sozinho — embora talvez não esteja.
Para todos, permanece uma pergunta: quando alguém decide deixar de esperar?
Responsabilidade
A linguagem da culpa pouco explica. A da responsabilidade talvez ilumine mais.
E, quase sempre, ela começa no mesmo lugar: no espelho.
Não sou otimista de fim de ano. Não sou pessimista sem visão. Sou alguém que já viu terra arada virar colheita.
Daqui a quatro anos, como você estará?