I
Quantos rostos passam por nós,
carregando histórias que nunca ouvimos.
São sombras que sussurram segredos,
vidas pulsando no anonimato,
um mosaico de desejos e medos,
espalhados pelo vento da rotina.
Paramos para olhar, mas não para ver,
e entre olhares cruzados, nos perdemos.
O que é o outro, senão um reflexo?
Uma faísca que acende algo em nós,
um eco de tudo o que já fomos,
ou do que nunca seremos.
II
Essas vidas, tão próximas, tão alheias,
nos chamam, nos puxam, nos consomem.
Queremos decifrá-las, tocá-las,
como se nelas houvesse redenção.
Mas, no espelho, a imagem turva,
nos esquecemos de quem somos.
A ânsia de entender o mundo lá fora
nos faz esquecer o universo aqui dentro.
Há um silêncio no peito que grita,
uma ausência que nunca preenchemos,
como se a vida do outro fosse a chave
para abrir a porta que trancamos.
III
Então, sentamos à margem de nós mesmos,
olhando o fluxo das vidas que passam.
É preciso coragem para voltar os olhos,
para olhar fundo na própria alma.
Quantas vidas ignoramos em nós?
Quantos sonhos deixamos à deriva?
Há uma multidão em cada coração,
rostos e vozes que não ouvimos.
O incrível não é a vastidão lá fora,
mas o infinito que carregamos.
E, ao lembrar de nós, talvez,
enfim, possamos ver o outro.
Autor: Iáres Souzà