O Jovem Que Some
Precisamos de repetidores de esperança.
O início que forma o caminho
Um homem saiu de Russas, no interior do Ceará, décadas atrás. Nunca tinha visto um carro. Quando viu, tocou — com a mão aberta, com aquela alegria de quem descobre o mundo pela primeira vez. Levou um tapa na cara do dono. Voltou para casa com a marca no rosto e algo mais difícil de apagar: a raiva que, em vez de destruí-lo, o fez estudar, trabalhar e conquistar. Anos depois, tinha vários carros.
Não conto isso para romantizar a humilhação. Conto porque esse homem era meu pai — psicólogo áspero quase sempre, extremamente bondoso — e porque ele entendeu algo que muita gente ainda não entendeu: o obstáculo não é o fim do caminho. Às vezes, é o próprio caminho.
A ausência que não é escolha
Hoje, quase 9 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam e não trabalham. Além disso, nos 10% dos lares mais pobres do país, quase metade deles — 49,3% — está nessa condição. Chamamos de “nem-nem”, como se a ausência fosse uma escolha, uma preguiça ou um capricho geracional. No entanto, não é.
Dei aula durante décadas em escolas públicas e particulares. Vi alunos que não tinham tênis para calçar. Vi crianças que me confessaram, em voz baixa, que o pior período da semana era quando não havia aula — não pela falta de estudo, mas pela falta de comida. A merenda escolar era, muitas vezes, a única refeição do dia.
Nesse contexto, para esse jovem, o botão que está ligado não é o do “quero aprender”, mas o da sobrevivência. E a sobrevivência tem sua própria biologia: irritabilidade, agressividade, ausência. Portanto, não é falta de caráter. É fome. E a fome que se perpetua quando ninguém age é o verdadeiro problema — não o jovem que some.
O papel da família e da escola
Entretanto, a fome não é a única explicação. E aqui preciso ser honesto, sem condescendência.
A escola brasileira, em parcela significativa, ainda forma pessoas que sabem responder provas — mas não resolver problemas. Um diploma é uma porta, não uma garantia de que se sabe entrar. Além disso, professor não é educador no sentido mais profundo da palavra — educar é papel da família.
Posso ser professor, orientar, abrir portas. No entanto, é em casa que se olha a mochila, que se cobra o dever, que se estabelece o limite necessário. Em décadas de sala de aula, pude constatar que os alunos acompanhados de perto chegam mais longe. Não é uma regra absoluta, mas é uma frequência que não mente.
Assim, a família é a coluna dorsal. E, quando ela está ausente, o jovem caminha sem direção.
O exemplo que prova o caminho
Existe, porém, um experimento que prova que é possível fazer diferente. E não nasceu em capital rica — nasceu no interior do Ceará.
Em Sobral, enquanto o Brasil registrava 5,9 no IDEB dos Anos Iniciais em 2023, o município alcançou 9,6. Já nos Anos Finais, quando a média nacional mal atingia 4,7, Sobral chegou a 7,9. Em 2005, ocupava a posição 1.366 no ranking nacional. Hoje, está no topo.
Portanto, não foi sorte. Foi método, continuidade e política pública tratada como compromisso: gestores escolhidos por competência, alfabetização como prioridade estrutural e professores valorizados de verdade.
Diante disso, surge a pergunta: se já sabemos que esse caminho funciona, por que o Brasil ainda demora tanto? É mais proveitoso curar a doença ou continuar vendendo o remédio?
Experiência, esforço e possibilidade
Estudei em uma escola em Cuiabá onde a biblioteca cabia em uma sapateira — doze livros. Li todos várias vezes. Aprendi a sintetizar porque não tinha escolha.
Não defendo o sofrimento como método. No entanto, defendo que uma árvore forte é aquela que suportou vendavais. Além disso, o jovem de hoje tem em mãos algo que nenhuma geração anterior teve: acesso à informação que pode se transformar em conhecimento — e transformar um mundo volátil em um mundo sólido. Se quiser.
O erro de percepção
A contemporaneidade parece ter interesse em desconstruir os heróis. A felicidade virou produto, o mérito virou palavra feia e o limite virou opressão. Contudo, confundir ignorante com estúpido é o erro mais caro que pagamos.
O jovem não sabe o que quer — ou está sendo levado a querer o que querem que ele queira?
Somos, portanto, cegos sem problemas aparentes na retina.
A pergunta que permanece
Não sou saudosista. Cada era tem sua peculiaridade. Entretanto, entre as gerações existe uma ligação sináptica que não pode ser cortada.
Assim, a pergunta não é se o passado era melhor. A pergunta é: estamos onde deveríamos estar?
O problema nunca foi o jovem. É o que deixamos — ou deixamos de deixar — para ele.
Conclusão
Ofereço aqui não uma resposta, mas um ponto de partida: reflexão.
Não concordem comigo. Não acreditem no que digo. Vivam. Vejam com os olhos de ver. Construam.
O que você tem agora em mãos que pode fazer você ter uma vida melhor?