Algo: O Bom Dia Invisível
Hoje é dia onze de dezembro. O ano pode ser o seu — o meu, por acaso, é 2024. Os dias se parecem, mas nunca são iguais. Há algo em cada manhã que pulsa de modo distinto, uma corrente invisível que atravessa as ruas antes que qualquer pessoa perceba. A superfície pode estar calma. Por baixo, tudo se move.
Esta manhã, as ruas estavam serenas. Quase silenciosas — mas não eram as ruas que estavam quietas. Eram as pessoas. Cada uma dentro de sua bolha de rotina, carregando seus próprios pensamentos como se fossem bagagem de mão. Alguns soltam um “bom dia” sonoro ao passar. Outros erram o nome da gente com a gentileza distraída de quem ainda não acordou de vez. E há os que atravessam o mundo como se fossem transparentes — invisíveis até para si mesmos.
A senhora na porta
Passando por uma rua tranquila, vi uma senhora parada na entrada de sua casa. Pijama, rosto marcado pelo tempo, olhos voltados para quem passava. Havia algo naquele gesto — o de aguardar, sem pedir nada diretamente — que me deteve por um segundo. Como se ela esperasse não um pacote, não uma visita. Apenas um sinal. Algo que dissesse: você está aqui, eu estou aqui, o mundo continua.
Senti que alguma coisa faltava naquele instante. E não sei se foi por ela ou por mim, mas não hesitei: disse “bom dia” com todo o calor que consegui reunir naquele momento.
Ela me olhou. E respondeu com uma força que me tocou de verdade — não o tipo de força que vem do entusiasmo, mas a que vem de quem guarda algo por muito tempo e finalmente encontra onde pousar. Parecia que aquele “bom dia” não era para ficar com ela. Era para alguém que não estava mais ali, ou que ainda não havia chegado.
Quando uma palavra devolve o contorno das coisas
Talvez ninguém tivesse dito “bom dia” a ela por algum tempo. Ou, se disseram, era o tipo protocolar — o gesto que cumpre a forma sem habitar o conteúdo. Aquele meu pequeno gesto pareceu, por um segundo, mais do que cortesia. Era reconhecimento. Um lembrete silencioso de que ela existia naquela manhã, naquela rua, naquele mundo que às vezes passa rápido demais para notar as pessoas paradas nas portas.
Não somos invisíveis uns para os outros — a não ser que nos deixemos ser.
A gente se perde na rotina. Isso não é maldade, nem indiferença deliberada. As pessoas te ignoram porque, muitas vezes, também estão se ignorando, se procurando dentro de si mesmas. Vivemos imersos em nossas próprias buscas e esquecemos de olhar para o lado — para o outro que também está buscando, também está esperando na porta.
O que cabe numa palavra de dois sílabas
Tem algo curioso nisso tudo: a gente organiza o dia em torno de reuniões, compromissos, listas, metas. E esquece que o gesto mais barato do dia pode ser também o mais valioso. Mais do que muitos rituais que tratamos como prioridade, um “bom dia” sincero faz uma coisa estranha e necessária — devolve o contorno das coisas. Devolve à pessoa a sensação de que ocupa espaço no mundo.
A senhora na porta provavelmente não esperava algo grandioso de mim. O que ela precisava era só de um pouco de luz. Um gesto que a fizesse, nem que por um segundo, se sentir vista. E ao dar esse presente tão pequeno, percebi o que todos nós carregamos sem saber: a necessidade de ser reconhecido. O abraço de palavras que dão calor e significado, o simples “bom dia” que não é simples coisa alguma.
Se você puder — de um jeito sincero — passe adiante o que foi dado a você. Um sorriso, uma palavra, um olhar. Em algum lugar, alguém como a senhora no portão talvez esteja esperando pelo bom dia que você nem sempre valoriza. E quem sabe aquele gesto não seja exatamente a energia que faltava para iluminar o dia de alguém — ou até o seu?