Memórias de um bairro que ainda me acolhe
Hoje ao olhar pela janela, vejo o Pirambu, o bairro onde cheguei há quase 30 anos, em uma tarde comum de agosto de 1995. Eu tinha 19 anos e, com um misto de expectativa e saudade, deixei para trás Cuiabá, onde vivi por 13 anos, e minha terra natal, Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Vim para Fortaleza com minha família, sem grandes emoções, apenas seguindo o curso natural da vida. Foi meu pai quem decidiu voltar às suas origens, ao Ceará, e assim, o bairro Pirambu se tornou meu novo lar.
O Pirambu me impressionou logo de cara. Era um bairro de história intensa, construído pelas mãos daqueles que resistiram à seca e às dificuldades do interior. Desde o fim do século XIX, o Pirambu abrigou pessoas em busca de uma nova chance, um lugar de luta, de histórias marcadas pela resistência e por um forte senso de comunidade. Hoje, ainda vejo isso refletido nas ruas, nos rostos dos moradores que, como eu, permanecem aqui, fazendo do bairro mais do que apenas um endereço.
Logo que cheguei, notei que a cultura era parte essencial do Pirambu. A Igreja Nossa Senhora das Graças promovia cursos e atividades culturais, sempre com a presença marcante de padres como Frei Martins, Frei Roberto e Frei Cícero. Havia até uma orquestra, algo que me fascinou, pois sempre tive um vínculo forte com a música e a escrita. Envolvi-me nas atividades culturais do bairro, mas de uma maneira discreta, como sempre preferi. Não sou de multidões, nunca fui. Minha natureza introspectiva me faz buscar o silêncio, a solitude, onde encontro espaço para criar, refletir e existir de forma plena.
Ainda hoje, continuo sendo essa pessoa que prefere o silêncio das palavras e o som suave de uma melodia tocada para poucos, ou apenas para mim. O Pirambu, com toda sua agitação, soube respeitar isso em mim. Aqui, eu aprendi que não precisamos nos encaixar para encontrar nosso lugar. Sempre vivi imerso em livros, estudos, música e escrita, e essa introspecção, que muitos confundem com tristeza, é, na verdade, minha maior alegria.
O que mais me marca no Pirambu, até hoje, é sua resistência. O bairro sobreviveu às tentativas de apagamento, resistiu às políticas de higienização social e, de alguma forma, manteve viva sua identidade. O nome Pirambu vem do tupi e significa peixe-roncador, uma metáfora perfeita para o que o bairro representa: uma comunidade que faz sua presença ser sentida, mesmo que de forma silenciosa. Assim como o peixe que ronca no fundo das águas, o Pirambu continua a resistir, a afirmar sua existência, e eu, de certa forma, faço o mesmo.
Ao longo dos anos, vi muitas mudanças no bairro. A Avenida Leste-Oeste, que corta o Pirambu em duas partes, ainda é uma presença marcante, dividindo o bairro, mas unindo histórias de vida que se cruzam e se entrelaçam a cada esquina. Hoje, vejo o Pirambu com os olhos de quem vive aqui há quase três décadas e percebe o valor profundo de suas raízes. Não é apenas um bairro onde moro. É um lugar onde encontrei uma forma de ser, de resistir e de criar, mesmo em meio às adversidades.
Agora, quando saio para caminhar pelas ruas do Pirambu, vejo a mesma força que me acolheu quando cheguei aqui. O bairro continua a pulsar, cheio de vida, cultura e histórias. E eu, que sempre fui mais observador do que participante ativo, continuo a me alimentar dessa energia, escrevendo minhas crônicas, compondo minhas reflexões, tudo a partir desse lugar que, apesar de tantas transformações, mantém sua essência.
Ainda moro no Pirambu. Ainda faço parte dessa história. O bairro que me acolheu em 1995 continua sendo meu lar, meu refúgio e meu espaço de criação. O silêncio que tanto aprecio ecoa pelas ruas do bairro, entrelaçado com o som das lutas e das vitórias daqueles que, como eu, escolheram permanecer. E assim, o Pirambu segue, resistindo ao tempo, tal como eu.
Autor: Iáres Souzà