O Ritual do Desenvolvimento | Iares Ibero Sombra

O Ritual do Desenvolvimento

A empresa investe para mudar. E gerencia para repetir.

A empresa investe para mudar. E gerencia para repetir. O ritual do desenvolvimento

Existe um tipo de investimento que as organizações fazem com genuína convicção de que estão fazendo a coisa certa.

Contratam consultorias. Escolhem facilitadores. Reservam salas, coffee breaks, crachás com nome.

Enviam profissionais para cursos, workshops, imersões de dois dias em hotéis com flipchart e post-it colorido.

E quando tudo termina, emitem certificados.

O certificado vai para o currículo.

O profissional volta para a mesa.

E na segunda-feira… tudo é exatamente igual à sexta-feira anterior.

O que não é nomeado

Não por mal-caratismo. Não por preguiça.

Por algo mais difícil de nomear — e é justamente por isso que ninguém nomeia.

O sistema reconhece o certificado. Não reconhece o que mudou.

E como o que mudou não tem papel passado em cartório, vai sendo engolido pela rotina… até desaparecer.

O erro de encaixe

Há um equívoco estrutural no centro dessa história.

Ele não mora no curso. Mora no que espera o profissional quando o curso acaba.

Pense no professor de história que, por necessidade do sistema, passa a dar aula de geografia.

Ele não é incompetente. Ele foi colocado no encaixe errado.

E o sistema, em vez de rever o encaixe, mede o desempenho como se o encaixe fosse perfeito — e conclui que o problema é o professor.

A lógica que se repete

O treinamento corporativo reproduz essa lógica com precisão admirável.

Forma o profissional para um comportamento novo. Devolve esse profissional ao mesmo ambiente que produziu o comportamento que se queria mudar.

E aguarda, com genuína expectativa, resultados diferentes.

Bater o machado sem o fio afiado é perda de tempo.

Mas há algo pior do que o machado sem fio:

É afiar o machado… e devolvê-lo a quem não pode usá-lo com liberdade.

O machado afiado guardado no armário não corta nada.

Só enferruja.

A pedagogia silenciosa do sistema

O que o sistema treina — sem querer, sem perceber — é a não ser proativo.

Não é conspiração. É adaptação.

O profissional que chega com ideia nova aprende, com o tempo, que ideia nova tem custo.

Que iniciativa incomoda. Que quem não perturba permanece. E quem questiona precisa justificar cada vírgula do questionamento.

Ele não decide parar de pensar.

Ele vai se apequenando — devagar, imperceptivelmente — como uma voz que baixa o tom quando percebe que ninguém está ouvindo.

A perda invisível

E quando termina de se apequenar o suficiente…

vai para a concorrência.

Leva consigo exatamente aquilo que a empresa pagou para desenvolver.

A organização perde duas vezes.

Primeiro quando silencia a ideia. Depois quando perde quem a tinha.

O conforto da culpa — e sua inutilidade

Há uma tentação, aqui, de apontar culpados.

O RH que encomendou o pseudocurso. O gestor que não acompanhou o retorno. O CEO que aprovou o orçamento sem perguntar o que mudaria na segunda-feira seguinte.

Mas culpa não serve. Nunca serviu.

O que existe é responsabilidade.

E ela pertence a todos que compõem esse sistema — da função menos complexa à mais complexa.

O problema é que responsabilidade compartilhada, sem um fio que conecte as partes… vira responsabilidade de ninguém.

O antagonista invisível

O antagonista real dessa história é exatamente isso: o que se esconde.

Não tem nome. Não tem cargo. Não assina memorando.

Se soubéssemos exatamente onde ele mora, este ensaio não precisaria existir.

Não haveria palestra a fazer.

Mas o que temos é o real. E é nele que se trabalha — em processo contínuo — porque é assim que as coisas evoluem.

O gestor que não sabe

O gestor que vai ler este texto — e aqui falo com respeito genuíno — provavelmente não sabe que o sistema que ajudou a construir está sabotando o que ele genuinamente quer.

Ele busca melhoria contínua. Ele acredita nos treinamentos que aprova.

Ele não é o vilão da história.

Mas o baú de diplomas está cheio.

E a organização continua esperando que o próximo curso resolva o que os anteriores não resolveram.

O limite das ferramentas

Pessoas não são variáveis.

São micro-universos dentro de um universo que ainda nem tateamos.

Nenhuma ferramenta de seleção acerta cem por cento. Nenhum curso transforma quem não quer ser transformado. Nenhuma dinâmica de grupo sobrevive a um ambiente que a contradiz no dia seguinte.

O certificado foi emitido. A caixinha foi marcada. O sistema registrou que fez alguma coisa.

A pergunta que não entra na pauta

Mas a pergunta que não entra na pauta, não vira slide e não aparece no post-it colorido da parede é simples:

Se você fosse um funcionário da sua própria empresa… você ficaria?

Iares Ibero Sombra, jornalista, escritor e ensaísta

Iares Ibero Sombra

Jornalista • Escritor • Mestre em Educação

Colaborador do jornal Gazeta do Povo. Desenvolve ensaios sobre comportamento, consciência e liberdade na era contemporânea, com uma abordagem que une análise crítica e reflexão existencial.

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