Caminhos, palavras e o tempo
O sábado chega com um ritmo diferente em Fortaleza. O sol, sempre presente, aquece as ruas e ilumina as fachadas das casas de maneira quase teatral, como se preparasse a cidade para um dia de folga que, na verdade, nunca é apenas descanso. Mesmo nas horas em que deveria desacelerar, há algo na cidade que pulsa, como se o tempo aqui nunca realmente parasse.
Acordo sem a pressa de outros dias, mas com a certeza de que há sempre algo a ser feito. A pilha de livros à espera de serem lidos, as páginas em branco que me aguardam neste blog, onde derramo meus pensamentos que, para muitos, podem soar desconexos. Talvez sejam mesmo. Não escrevo para ser entendido, nem para ser aprovado. Escrevo porque preciso, como quem respira para manter-se vivo. A audiência, se por acaso estiver presente, é apenas um eco distante. Se minhas palavras encontram alguém no caminho, ótimo; se não, elas ainda cumprem seu papel de existir.
O sábado, porém, me oferece uma pausa nesse caos. Em alguns momentos, aproveito para caminhar com meu filho pela calçadão da praia. A brisa do mar parece carregar consigo um pedaço de eternidade, como se os problemas da semana pudessem, ao menos por um instante, ser levados embora pelas ondas que quebram incansavelmente na areia. Nessas caminhadas, observo o mundo ao meu redor, mas sem pressa. Fortaleza, em seu próprio jeito caótico, tem uma harmonia peculiar, uma espécie de dança entre a beleza natural e a correria da vida urbana. Enquanto caminhamos, me sinto grato pela simplicidade dessas horas, pelo sorriso do meu filho ao sentir o vento no rosto.
Há vezes em que o sábado me leva ao centro da cidade. Meu filho, como toda criança, adora um hambúrguer, e aproveitamos essa desculpa para explorar as ruas antigas, as lojas, as histórias que as paredes parecem contar. O centro é um lugar onde a vida parece pulsar de maneira diferente. O fluxo de pessoas indo e vindo, com seus olhares distantes ou fixos em algum ponto invisível, me faz pensar em como cada um ali carrega uma história única. Somos todos narradores de nossas próprias vidas, mesmo que, muitas vezes, nem nos demos conta disso.
E é justamente nesse emaranhado de histórias que me descubro. Observar as expressões das pessoas – algumas marcadas pelo cansaço, outras pela alegria, outras ainda por preocupações mais profundas – me faz refletir sobre como estamos todos conectados por uma rede invisível. Alguns se perdem em seus próprios vícios, outros parecem apenas seguir o fluxo, mas, de alguma forma, estamos todos navegando o mesmo mar. E, nesse mar, eu também flutuo, às vezes sem saber muito bem para onde vou, mas sempre com a certeza de que essas pequenas interações com o mundo ao meu redor me ensinam mais do que qualquer livro.
Quando não estou caminhando, volto para casa e observo a vida através das janelas, onde o dia vai se desenrolando em sua própria cadência. Gosto de estar presente, de observar o agora, sem a urgência de tentar entender tudo. O tempo, esse mistério que nos escapa entre os dedos, se revela nas pequenas coisas – no sorriso de um desconhecido, no voo dos pássaros ao fim da tarde, nas luzes da cidade que começam a acender à medida que o dia dá lugar à noite.
Há sábados em que minha filha vem me visitar, e esses momentos são especialmente gratificantes. Ver meus dois filhos juntos me dá a sensação de que estou deixando algo maior do que eu. Eles são, de certa forma, minha continuação na Terra, uma parte de mim que seguirá adiante, vivendo suas próprias histórias, traçando seus próprios caminhos. Nessas horas, percebo que o tempo que tenho aqui não é apenas meu, mas também deles, e que, mais do que qualquer outra coisa, meu papel é estar presente para eles, por mais que o mundo ao redor pareça estar sempre em movimento.
E assim, o sábado vai se encerrando, e com ele, vem a sensação de que, por mais que os dias sejam cíclicos, nunca são realmente iguais. Fortaleza continua a viver, com sua vibração única, e eu sigo sendo parte dessa cidade, observando, escrevendo, vivendo. Talvez o maior aprendizado de todos seja esse: estar aqui, presente, aproveitando cada instante, não porque é sábado, mas porque cada momento, em si, já carrega o peso e a leveza da eternidade.
Autor: Iáres Souzà