Havia algo de mágico naquele lugar. Não era o tipo de magia que transforma sapos em príncipes ou faz árvores crescerem da noite para o dia. Era uma magia mais sutil, a que só os que vivem o cotidiano entre cadernos e sonhos conseguem perceber. A Universidade Federal do Ceará, em seus setenta anos, não era apenas um edifício ou um complexo de prédios. Era, na verdade, uma árvore centenária, com galhos que se estendiam muito além dos seus muros, frondosa, enraizada em um solo árido e, ao mesmo tempo, fecundo. Uma árvore que crescia, mas sem nunca esquecer de onde tirava sua força: o Ceará.
Em 1954, quando o Ceará se olhava no espelho, via um lugar de contrastes. As secas queimavam a terra, mas o povo se mantinha resiliente. Nessa época, algo começava a germinar — não era apenas a esperança de um inverno generoso, mas uma semente de futuro plantada ali, no coração de Fortaleza. A UFC nasceu como quem nasce na beira do rio: pronta para canalizar não só a água, mas o saber.
Eu não estudei na UFC, mas sempre estive cercado por amigos e parentes que fizeram dela a sua casa. Suas histórias e conquistas me inspiram, e mesmo de longe, sinto o impacto que essa universidade teve em suas vidas. Quando fiz um curso de extensão em Educação, na formação para professores do projeto Projovem, percebi que, de alguma forma, também fazia parte dessa jornada de setenta anos de histórias e aprendizados.
As primeiras salas se encheram de vozes. Vozes que sabiam que a educação era o melhor antídoto contra a seca de ideias e oportunidades. Ali, dentro de suas paredes, o Ceará deixava de ser periferia e passava a ser centro, e mais do que isso, uma liderança. Não de uma liderança que se impõe por títulos ou conquistas vazias, mas por gestos, pesquisas, iniciativas que tocavam a vida real.
Cada curso, cada pesquisa, era uma flor que brotava dessa árvore chamada UFC. Suas raízes mergulhavam fundo no solo cearense, mas seus galhos se abriam para o mundo. Do interior de um laboratório, onde um jovem cientista descobria algo pequeno, mas de grande impacto, até a sala de aula onde futuros advogados debatiam justiça, a UFC estava em constante diálogo com o Ceará e com o universo. Era como se cada estudante fosse uma gota de água que, ao cair, se espalhava e criava ondas, de Fortaleza para além do Atlântico.
Quem cruzava aqueles corredores sabia: ali não se aprendia apenas o que estava nos livros. Ali, ensinava-se que o nordestino é força, não por ser resistente à seca, mas por ser abundante em criatividade, cultura e ciência. A UFC moldou uma liderança não arrogante, mas gentil, que soube enxergar que o regional não se isola; ele se expande, se conecta ao que há de universal, e é aí que reside a verdadeira grandeza.
Não era por acaso que, ao longo de seus setenta anos, essa árvore cresceu também no interior. Sobral, Quixadá, Crateús, Russas – nomes que ressoavam no mapa do Ceará como pontos de luz em uma constelação educacional. O saber não poderia ficar confinado à capital; como todo rio que nasce pequeno, ele precisava correr por todo o estado. Cada campus novo, cada biblioteca aberta era uma nova trilha para o conhecimento, que levava consigo o sotaque arrastado, o jeito leve de quem sabe que a vida no sertão pode ser dura, mas nunca sem brilho.
O mais surpreendente sobre a UFC é que ela nunca se limitou ao papel de ser uma mera transmissora de saber acadêmico. Ela estendeu suas mãos para as comunidades, levando a extensão social como quem leva água ao pote seco. Se havia uma doença a ser curada, lá estavam os alunos e professores da Saúde. Se havia um problema jurídico a ser resolvido, lá estavam os futuros advogados. Se uma nova ideia tecnológica podia melhorar a vida do agricultor, lá estava o engenheiro com a solução. A UFC não via a educação como algo distante da realidade. Cada projeto era um encontro com o Ceará que ela tanto amava.
Aqui estamos, setenta anos depois, olhando para essa árvore gigantesca que a UFC se tornou. Uma árvore que não para de crescer, que continua a dar frutos, florescendo não só no Ceará, mas além. Cada aluno que passa por seus bancos leva um pedaço dessa árvore consigo, plantando novas sementes onde quer que vá. O Ceará, por sua vez, continua orgulhoso, não apenas por ter uma universidade, mas por ter uma UFC que soube traduzir o que há de melhor no nordestino: a vontade de crescer, aprender e transformar.
Setenta anos não são apenas décadas, são raízes e galhos que ainda se multiplicam. Que a UFC continue a crescer, como cresce a vida que ela ajuda a florescer.
Iares Ibero Sombra
Mestre em Educação, jornalista e escritor. Colaborador da Gazeta do Povo. Analisa a cultura e a liberdade na era digital. iares.com.br