O homem que não sentia saudade
No interior de uma cidade pequena, onde as ruas de paralelepípedo guardavam histórias esquecidas, vivia Elias. Aparentemente, era um homem como qualquer outro, mas havia algo que o diferenciava: Elias não sentia saudade, medo ou receio.
A vida o moldara assim. Crescera entre mudanças constantes, aprendendo a desapegar-se de lugares, pessoas e até mesmo de memórias. Seu pai, um homem de poucas palavras, dizia sempre:
“O rio não segura a água, e nós não devemos segurar o tempo.”
Elias ouvira isso tantas vezes que passou a viver segundo essa filosofia, aceitando a fluidez da vida sem amarras emocionais.
Certo dia, chegou à cidade uma mulher chamada Clara. Trazia nos olhos a inquietação de quem carrega um passado pesado. Buscava recomeços, mas não sabia como. Conheceu Elias por acaso, quando se sentou ao lado dele em um banco de praça. Observando sua serenidade, perguntou, meio sem querer: “Você nunca sente saudade? Nunca teve medo de perder algo?”
Elias a olhou como quem decifra um enigma e, depois de um silêncio que pareceu se estender além do necessário, respondeu: “Saudade é uma gaiola. Medo, uma sombra. Eu prefiro caminhar livre e sob o sol”.
Clara franziu a testa. Aquela resposta a incomodava e, ao mesmo tempo, despertava curiosidade. Como alguém poderia viver assim, sem se prender ao que foi ou ao que poderia ser? Durante dias, voltou à praça, sentou-se ao lado dele, ouviu suas palavras. Aos poucos, percebeu que Elias não era insensível, apenas escolhera não carregar pesos desnecessários.
Uma tarde, Clara insistiu: “Mas e quando se perde alguém que se ama? Você simplesmente segue em frente como se nada tivesse acontecido?”
Elias suspirou. “A gente nunca perde. O que foi vivido se transforma, se acomoda dentro de nós de outro jeito. A dor vem da resistência, do desejo de congelar algo que já mudou.”
Clara ponderou aquilo por dias. Então, numa manhã chuvosa, ao sentar-se no banco da praça, não encontrou Elias. Sentiu um leve desconforto. Ele nunca faltava. Durante uma semana, ele não apareceu, e Clara percebeu algo estranho: estava sentindo saudade de um homem que dizia não senti-la. Mas será que ele realmente não sentia?
Quando Elias finalmente retornou, Clara notou um brilho diferente em seus olhos. “Onde esteve?”, perguntou sem disfarçar a curiosidade.
“Fui visitar o mar”, respondeu ele, com um sorriso discreto.
“E o que encontrou lá?”
“O mesmo que sempre encontro: movimento. O mar nunca está parado, nunca é o mesmo, e mesmo assim continua sendo mar. Talvez seja assim que devemos ser”, disse Elias, encarando o horizonte.
Clara percebeu que a ausência dele a afetara mais do que imaginava. E entendeu, naquele instante, que a saudade não é uma gaiola, como Elias dizia, mas uma brisa que nos lembra do que nos tocou profundamente. E talvez ele soubesse disso mais do que admitia.
Naquele dia, quando Clara se despediu, Elias a observou indo embora. Por um momento, sentiu algo leve no peito. Não era tristeza, nem medo. Talvez, quem sabe, um vestígio de saudade.