Não sei se é o tempo que muda a forma como enxergamos o mundo ou se o mundo realmente perdeu algo essencial no caminho. Parece que tudo ao nosso redor se fragmentou. As pessoas não se olham mais como antes, não se tocam mais com aquele respeito que reconhecia a humanidade do outro. Passam umas pelas outras como sombras, distraídas, absortas em suas próprias inquietações ou nas telas de seus celulares, que mais prendem do que libertam.
A vida virou um cenário de urgências vazias. Corre-se para não se atrasar, mas não se sabe bem para onde. Trabalha-se para acumular coisas que logo perdem o valor. Come-se para preencher um vazio que não é do estômago, mas da alma. E, quando há tempo para refletir, percebe-se que tudo se transformou em um grande teatro onde os papéis são desempenhados sem emoção, sem convicção.
Sinto falta de algo que não sei exatamente nomear. Talvez seja o silêncio compartilhado entre duas pessoas que não precisam de palavras para se entender. Ou o tipo de conversa que cura, que nos faz sentir menos sozinhos. Antigamente, mesmo sem tantas facilidades tecnológicas, havia mais presença. Agora, com todas as conexões disponíveis, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras.
Às vezes, surge em mim o desejo de escapar. Não como fuga covarde, mas como busca por um refúgio onde a vida seja mais simples, mais real. Imagino um lugar onde os dias passem devagar, onde as pessoas parem para observar umas às outras, onde o respeito não seja exceção, mas regra. No entanto, ao longo do tempo, percebi que esse lugar ideal não está nas paisagens que vejo ao longe, mas dentro de mim.
Mesmo assim, não posso evitar o pensamento: e se esse lugar não fosse apenas interno? E se houvesse uma forma de o mundo também carregar essa tranquilidade, esse cuidado genuíno com o próximo? Um lugar onde os olhares não fossem apressados, onde o toque fosse de consolo, e onde as palavras fossem bálsamos e não feridas.
Mas construir um mundo assim parece tão difícil… Talvez porque demandaria que cada um de nós reconhecesse suas próprias feridas e começasse a curá-las. Afinal, como oferecer ao outro aquilo que não temos dentro de nós? Quem não encontra paz em si dificilmente a encontrará no outro. E, ainda assim, não acho que seja impossível.
Penso em como pequenas ações podem ser sementes. Um sorriso para quem se sente invisível, um “como você está?” que realmente espera por uma resposta, um gesto que diz: “eu me importo com você”. Essas ações simples talvez não mudem o mundo inteiro de uma vez, mas têm o poder de mudar o mundo de alguém. E, de pessoa em pessoa, quem sabe não se construa algo maior?
Olho para o mundo ao meu redor e, mesmo em meio a toda essa frieza, vejo lampejos de luz. Ainda há aqueles que seguram portas para desconhecidos, que elogiam sem esperar nada em troca, que param para ouvir sem olhar para o relógio. Esses pequenos atos, aparentemente insignificantes, são as raízes de um lugar melhor.
Eu continuo sonhando. Não apenas com um mundo onde as pessoas vivam de forma mais consciente, mas onde elas despertem. Porque viver não é apenas existir. É sentir, é se conectar, é entender que o outro também é parte de nós. O mundo precisa de pessoas que lembrem que a vida não é só sobre o que temos ou mostramos, mas sobre o que deixamos no coração dos outros.
E, se for verdade que o mundo reflete aquilo que carregamos dentro de nós, talvez a mudança comece em mim. No cuidado com minhas palavras, na paciência com os erros alheios, na coragem de ser vulnerável em um mundo que nos pede máscaras. Talvez, se eu cuidar desse lugar interno que tanto almejo, ele possa irradiar. E, ao irradiar, inspirar outros.
Então, um dia, quem sabe, esse lugar que tanto desejo dentro de mim também exista lá fora. Não como um sonho impossível, mas como um pedaço de realidade compartilhada. Um mundo onde as pessoas, enfim, se importem umas com as outras, e viver não seja apenas sobreviver, mas florescer.
Autor: Iáres Souzà