Posso ser o silêncio entre as palavras,
um intervalo leve entre o antes e o depois.
Serei a sombra que dança nas paredes,
sempre presente, mas nunca o centro da luz.
Posso ser a brisa que toca teu rosto,
o sussurro de um caminho não escolhido.
Sou o instante que sugere possibilidades,
mas nunca a escolha que define tua jornada.
Sou o eco distante de uma canção,
uma lembrança de algo que nunca foi dito.
Serei o reflexo em poças de chuva,
um vislumbre passageiro de algo maior.
Posso ser o tempo que dilata o agora,
um fio que costura dias e memórias.
Sou o limite tênue entre a espera e o agir,
uma ponte que não atravesso por ti.
Sou a dúvida que te ensina a buscar,
a pergunta que não te oferece respostas.
Serei a pausa que provoca movimento,
mas nunca o destino que aguarda teu chegar.
Posso ser o vento que bagunça teus passos,
te fazendo olhar para caminhos esquecidos.
Sou a provocação no meio do conforto,
uma lembrança de que há algo além.
Sou o lampejo de um relâmpago breve,
iluminando o que talvez nunca enxergues.
Sou a linha que separa o chão do céu,
mas não o voo que desafia a gravidade.
Posso ser o início de uma história nova,
mas nunca a página que precisa ser escrita.
Sou o convite para o desconhecido,
mas não a coragem que aceita partir.
Serei um verso perdido na multidão,
um fragmento de algo que não se completa.
Sou a leveza que desafia o peso,
mas não a força que te sustenta.
Posso ser uma estrela apagando-se ao longe,
lembrando-te de que a luz pode cessar.
Sou o mistério do que não é revelado,
um enigma que não pede solução.
Serei a faísca de um fogo distante,
não o calor que te envolve por inteiro.
Sou o intervalo entre o nascer e o morrer,
a lembrança de que viver é teu desafio.
E assim permaneço:
sempre perto, mas nunca o suficiente.
Porque o que és, o que deves ser,
é algo que ninguém além de ti pode alcançar.
Autor: Iáres Souzà