Quarta-feira, estrada aberta,
no meio do tempo que não se espera,
prenúncio suave de um amanhã,
sopro de vida que a pele chama.
O vento, velho narrador do dia,
corta a distância com melodia,
e na pele, um toque breve,
querendo ser mais do que leve.
É meio do caminho, ponto suspenso,
um instante que guarda o imenso,
não é começo nem o fim,
mas pulsa, vivo por toda parte.
A ida para o trabalho é rito,
passo a passo, o mundo é escrito,
e o vento insiste, quase humano,
querendo ser corpo, gesto, engano.
Sinto-o dançar no meu contorno,
como quem desenha um retorno,
não só presença, mas existência,
querendo ser mais que resistência.
Há nos dias esse exato centro,
onde tudo é movimento lento,
nem o peso de ontem, nem o amanhã,
apenas o agora que se mantém sã.
Quarta, o prelúdio da quinta-feira,
como notas numa pauta inteira,
o vento e eu, partitura breve,
num solo que a alma escreve.
Ser vento, pele, espaço e chão,
ser a pausa dentro da canção,
não apenas sentir a brisa fria,
mas sê-la, em toda sua poesia.
Assim, cada passo se faz caminho,
entre o todo e o pouquinho,
e na quarta, o mundo se revela,
em seu ritmo que sempre se vela.
Talvez o vento seja um profeta,
soprando verdades em linhas discretas,
ou quem sabe, apenas um gesto,
de quem quer viver o manifesto.
Mas enquanto ele passa, eu me dou,
em cada poro onde ele tocou,
não sou só quem sente, mas quem é,
nesta quarta, no trabalho, na fé.
E sigo, entre brisa e destino,
com o tempo a brincar de menino,
porque quarta, no fim, é só um aviso,
que a vida é mais que qualquer juízo.
Autor: Iáres Souzà