Todas as noites, quando volto do trabalho, subo os degraus do sobrado e abro a janela que dá para a rua. Ali, com a cidade à minha frente, o tempo para. A rua, sempre viva, se transforma em meu teatro particular, onde os protagonistas são os passantes, os carros, os gatos que atravessam sem medo, os cães que farejam histórias nos lixos acumulados. Observo tudo, não como quem apenas olha, mas como quem aprende. É um exercício diário de compreensão, uma aula prática de humanidade.
A rua mudou muito desde que cheguei aqui. Era agosto de 1995, um mês que marcou o fim de uma fase e o início de outra. Lembro-me da partida de Cuiabá: o calor, as despedidas, a incerteza. A chegada, no dia 19, trouxe-me a vista de uma rua de paralelepípedos misturados com areia, onde os passos pareciam mais leves e os dias, menos apressados. O bairro me recebeu como se já me conhecesse, e logo me vi jogando bola com os jovens da época, dividindo a ingenuidade e a alegria que só a juventude oferece.
Naquela rua, éramos todos iguais. Não importava de onde vínhamos, qual era o peso das histórias que trazíamos. Havia algo mágico na simplicidade daquele tempo. A inocência corria entre as casas como o vento que levantava a areia do chão. Tínhamos uma capacidade natural de transformar o banal em aventura: jogos de bola até o anoitecer, conversas intermináveis sentados nas calçadas, risos que ecoavam por longas distâncias.
Hoje, os paralelepípedos deram lugar ao asfalto, as brincadeiras se silenciaram, e as calçadas se encheram de grades e muros. Não vejo mais as rodas de amigos, as risadas soltas. Mas a rua continua sendo uma testemunha, ainda que silenciosa. Cada mudança que ela sofreu parece estar gravada nela, como as marcas de uma árvore que cresce.
Eu também mudei. Tenho 50 anos agora, filhos que construíram seus próprios caminhos, memórias que se acumulam como livros numa estante. Tornei-me professor, jornalista, escritor. Escrevo há tanto tempo que não sei bem onde termina o hábito e começa a necessidade. Escrevo porque preciso, como quem respira para continuar. Não é pela leitura dos outros, embora às vezes me pergunte se alguém, em algum lugar, dedica um instante para minhas palavras. É um ato íntimo, um diálogo comigo mesmo.
Do meu sobrado, olho a rua e reflito sobre como a observação nos transforma. Quando jovem, observava para aprender; hoje, observo para compreender. Cada pessoa que passa carrega um universo que jamais conhecerei completamente. Os gatos que cruzam a rua parecem tão livres, mas até eles devem ter seus caminhos fixos. Os cachorros, farejando o lixo, talvez estejam em busca de algo mais do que comida: rastros de outros tempos, vestígios de histórias.
A rua, como a vida, não é imutável. Transformou-se ao longo dos anos, e eu me transformei com ela. Às vezes, sinto falta daquela inocência de antes, mas não carrego melancolia. Aprendi que o passado tem seu lugar, e o presente tem seu ritmo, mesmo que mais apressado. Ainda guardo a esperança de que a simplicidade possa ser resgatada, de que as novas gerações encontrem suas próprias formas de viver a magia que um dia conheci.
Enquanto isso, escrevo. Talvez este blog, onde deposito minhas palavras como quem planta sementes, desapareça um dia. Talvez se perca no fluxo incerto do tempo. Mas isso não importa tanto. O que importa é que hoje, enquanto a rua ainda pulsa à minha frente, escrevo para registrar não apenas o que vejo, mas o que sinto.
Do alto do sobrado, com a cidade ao fundo, observo, escrevo e vivo. Porque, afinal, a rua é mais do que um cenário: é um reflexo do que sou.
Autor: Iáres Souzà