Hoje o dia parecia ter sido esculpido no fogo. O calor não apenas nos cercava, mas nos invadia, tornando o ar quase palpável, como se pudéssemos tocá-lo e sentir suas bordas ásperas. Saí em direção ao centro da cidade, destino habitual para aqueles que vivem no vaivém dos dias e encontram na rotina uma forma de se distrair da complexidade da vida. Costumo ir a pé, deixar que meus passos dialoguem com a paisagem ao redor, mas, desta vez, a decisão foi outra: o calor abrasador ditou o caminho e optamos pelo ônibus.
Meu filho me acompanhava. Ele tem doze anos, idade em que o olhar ainda brilha diante do ordinário. Para ele, a parada de ônibus é um portal, e o veículo, uma nave que o transporta para mundos onde as descobertas são constantes. Ele fala sobre os carros na avenida, sobre as fachadas desgastadas dos prédios, até sobre um gato que vimos ao longe. Enquanto isso, penso no tempo. Não no das horas, mas no que escapa, silencioso, enquanto ele cresce.
A infância dele ainda me pertence, ao menos por agora. Seguro firme cada momento, mesmo quando a vida parece apressar os dias. Trabalho, responsabilidades, compromissos — tudo conspira para afastar os momentos que realmente importam. Mas, ainda assim, encontro formas de estar presente. Sei que um dia ele será um homem, e os traços dessa infância serão apenas lembranças guardadas em algum canto da memória. É por isso que cultivo algo mais profundo: valores, empatia, a delicadeza de olhar o outro como se cada pessoa carregasse um universo que vale a pena explorar.
Quando chegamos ao centro, seguimos até a Praça do Ferreira. Ali, a cidade pulsa de maneira única. Há uma energia que mistura a pressa e o cansaço, como se todos carregassem o peso de algo que não dizem em voz alta. As lojas brilham com suas vitrines tentadoras, enquanto as pessoas, de olhares vazios, entram e saem em uma espécie de transe. Observo-as e me pergunto se percebem a cena em que estão inseridas, ou se estão apenas vivendo por inércia.
Há algo desconcertante em ver tanta gente junta e, ao mesmo tempo, tão distante. Cada um parece existir em uma bolha feita de urgências próprias, desconectados daquilo que os cerca. O silêncio, embora quebrado pelo burburinho de vozes e passos apressados, parece mais presente que qualquer som. É como se o vazio estivesse disfarçado em meio à multidão.
Na área de alimentação, enquanto esperamos o pedido que meu filho escolheu com entusiasmo, observo mais uma vez. Mesas cheias de famílias que compartilham espaços, mas não momentos. Cada um imerso em sua tela, em um mundo virtual que parece mais atraente que o real. Há algo profundamente triste nisso. Não pela tecnologia em si, mas pelo que deixamos de fazer quando escolhemos o fácil em vez do verdadeiro.
Olho para o meu garoto, que me conta histórias inventadas, e faço questão de estar ali, presente de verdade. Ele fala sobre um jogo, sobre amigos da escola e sobre como acha que eu deveria pintar meu cabelo de azul. Rio e absorvo o quanto essas pequenas conversas são preciosas. Há um contraste gritante entre o que vejo nas outras mesas e o que construímos juntos ali.
No retorno para casa, o sol já começa a ceder, como se pedisse desculpas pelo dia severo. Caminhamos juntos até o portão, e ele, ainda cheio de energia, segue falando sobre os planos de uma próxima ida ao centro. Carrego comigo não apenas as sacolas, mas também os pensamentos que me acompanharam durante o dia.
Talvez a lição seja essa: viver não está no que compramos, nos lugares que visitamos ou nas horas que preenchemos com atividades. Está na presença. Está no olhar que damos ao outro, no tempo que escolhemos para ouvir, na decisão de não deixar os pequenos detalhes escaparem despercebidos.
Enquanto observo meu filho entrando em casa, sinto algo que poderia chamar de esperança. Ele carrega, em seu olhar curioso e em sua capacidade de inventar mundos, o segredo de enxergar o que muitos de nós esquecemos. Por agora, ao menos, faço de tudo para aprender com ele a ser mais presente, mais atento, mais vivo. Afinal, o tempo continua a passar, mas, no intervalo dos dias, há sempre algo invisível esperando para ser descoberto.
Autor: Iáres Souzà