Não sei por que as pessoas insistem em ferir umas às outras. Talvez seja porque não olham além do momento, não medem o impacto do que dizem ou fazem. É como se a pressa de satisfazer seus desejos, mesmo os mais mesquinhos, apagasse a capacidade de enxergar o outro. Não percebem que, ao fazerem o mal, estão, de alguma forma, marcando suas próprias almas, comprometendo o que há de mais puro nelas.
O mal, quando feito, é como uma pedra lançada em um lago. As ondas que se formam não se limitam a atingir os outros; elas retornam, em círculos, àquele que arremessou. É um retorno silencioso, às vezes imperceptível, mas inevitável. As pessoas parecem esquecer disso ou fingem não saber. Agem como se o mundo fosse um lugar sem espelhos, como se não existisse um reflexo de cada ato que praticamos.
E me pergunto: o que será que se passa dentro delas? Será que não sentem o peso? Será que o sono é leve quando suas ações carregam as dores de outros? Talvez a resposta esteja na falta de reflexão, na ausência de silêncio. Vivemos cercados por ruídos, distraídos por telas e luzes artificiais, perdidos em uma busca por algo que nem sabemos definir. Não há tempo para olhar para dentro, para questionar quem estamos nos tornando.
Mas o que me intriga não é apenas o mal em si, mas a indiferença que o acompanha. É o riso depois de uma palavra cruel, o descaso depois de um gesto egoísta. Como pode alguém caminhar pela vida com tanta leveza aparente, enquanto carrega nas mãos os pedaços que tirou de outras vidas? Será que o coração se endurece ao ponto de não sentir mais nada? Ou será que sente, mas escolhe ignorar?
Há uma espécie de punição invisível que não depende de ninguém além de nós mesmos. Não é algo que acontece com pompa ou aviso, mas sim de forma sutil e persistente. Ela se revela nos momentos de solidão, quando o barulho externo cessa e somos obrigados a nos escutar. É aí que entendemos que cada ato de maldade nos molda, nos redefine. E, muitas vezes, o que restará de nós é uma sombra do que poderíamos ter sido.
Por outro lado, também acredito na redenção. Acredito que o mesmo coração que se fecha para o outro pode, um dia, se abrir. Que o mesmo olhar que antes via apenas a si próprio pode, ao menos por um instante, perceber a dor que causou. Não há nada mais humano do que errar, mas também não há nada mais grandioso do que reconhecer o erro e mudar.
Talvez, o que falta ao mundo seja mais coragem. Coragem de ser gentil em um tempo onde a bondade é vista como fraqueza. Coragem de admitir que o outro importa, que cada escolha carrega um peso, que as pessoas são mais do que obstáculos ou ferramentas para nossos desejos. Coragem de amar, mesmo quando isso significa deixar de lado o próprio orgulho.
Ainda assim, a estrada parece longa. Enquanto muitos escolhem ferir, sigo tentando compreender, aceitando que nem sempre haverá resposta. Mas, no fundo, espero que um dia possamos aprender que a vida é um ciclo, um eterno retorno. E, nesse retorno, o que oferecemos ao mundo é o que, inevitavelmente, encontraremos pelo caminho.
Autor: Iáres Souzà