Chove em Fortaleza. Não uma chuva tímida que mal toca o chão, mas uma daquelas que lavam as ruas e carregam consigo os perfumes da terra molhada, os risos das crianças e, às vezes, os sonhos alheios. Há algo de mágico em ver a alegria da garotada correndo descalça, chutando bolas em poças que, para elas, são oceanos de aventuras. A ingenuidade ainda resiste, tímida, mas presente, uma pequena centelha num mundo cada vez mais apressado. Até quando? É uma pergunta que me ronda.
Enquanto isso, as velhas ruas se tornam rios improvisados, as avenidas viram pistas escorregadias, e os motoristas travam uma batalha com os limpadores de para-brisa. Nas calçadas, um desfile de guarda-chuvas coloridos transforma a cidade num mosaico apressado. Cada um com sua pressa, sua luta, sua história.
Mas há histórias que ninguém vê.
Nas áreas de risco, onde a água não é brincadeira, mas ameaça, as goteiras não são apenas incômodos: são lembranças de que, para muitos, o teto é tão frágil quanto os sonhos. Aquelas pessoas, com seus pés encharcados e olhares cansados, parecem invisíveis na paisagem urbana. Elas se tornam parte do cenário, como as poças ou os galhos arrastados pela enxurrada.
Penso nisso enquanto observo a chuva pela janela. Ela é um espetáculo para uns, um transtorno para outros, e uma tragédia silenciosa para muitos. É estranho como a mesma água que alegra as crianças é capaz de apagar esperanças em algum canto esquecido da cidade.
A chuva, que parecia tão barulhenta lá fora, deixa um silêncio dentro de mim. Um silêncio que me convida a refletir: quantas histórias passam despercebidas nos dias molhados? Quantos risos se perdem no barulho das enxurradas? E quantos olhos permanecem fechados diante de quem não tem para onde fugir?
Fortaleza segue sob chuva, e a vida continua. Para uns, um dia de diversão; para outros, mais um capítulo de resistência. E, enquanto as nuvens não se dissipam, só me resta torcer para que as águas que descem pelas ruas levem embora, ainda que por um instante, a indiferença que nos cega.
Autor: Iáres Souzà