O vai e vem da rua
Sempre penso que a vida, ou melhor, a minha, tem um propósito. Não é crescer, se tornar adulto, escolher uma profissão ou mesmo cursar uma faculdade. Essas coisas, percebo, são apenas meios para que possamos evoluir. Evolução, aqui, não é só biológica, mas do ser, do coração.
De vez em quando, me pego aqui, no alto do meu sobrado, observando o vai e vem das pessoas na rua. Há uma melodia silenciosa nesse movimento, um fluxo contínuo de passos, motores e olhares perdidos. Os motociclistas passam apressados, em um vai e vem que parece não ter destino. Muitas vezes, sinto que os movimentos deles são apenas desperdício de tempo, uma dança mecânica que não soma nada.
Os pedestres, por sua vez, caminham. E caminham. Alguns sabem para onde vão; outros, nem tanto. Descem do ônibus na parada do lado esquerdo da minha morada e seguem por caminhos que, para mim, parecem desconhecidos. Será que eles sabem para onde realmente vão? Ou será que, como tantas vezes acontece comigo, estão apenas seguindo porque é isso que se espera?
Os motoristas que já me conhecem às vezes buzinam. É um pequeno gesto, um aceno de que também me enxergam, mesmo que por um instante. E eu, daqui, reflito: o que resta desses pequenos encontros? Um som que se perde no ar, um sorriso que talvez nem tenha sido notado.
Tudo isso me faz pensar que nossas vidas, se vividas apenas pelo que fazemos, pouco significam. Dinheiro, carros, títulos — tudo isso é um eco vazio se não entendermos que estamos aqui para algo maior. Para evoluir. Para crescer por dentro.
No fim, talvez o propósito esteja menos no que conquistamos e mais no que nos tornamos enquanto tentamos conquistar. Os vai e vens da rua são como reflexos da nossa própria existência: um movimento incessante que, sem consciência, não nos leva a lugar algum.
E assim sigo, do alto do meu sobrado, tentando enxergar além do óbvio, ouvindo o silêncio que se esconde entre os passos apressados e os motores que passam. Tentando, enfim, encontrar algum sentido nesse fluxo contínuo da vida.
Iares Ibero Sombra
Mestre em Educação, jornalista e escritor. Colaborador da Gazeta do Povo. Analisa a cultura e a liberdade na era digital. iares.com.br