Dezembro chega como quem pede licença, trazendo consigo uma brisa que mistura o cheiro das chuvas de verão com a doçura de expectativas. É o mês do brilho nas vitrines, das festas que se desenham no horizonte e, claro, das promessas. É curioso como, nessa época, quase todos se tornam arquitetos de mudanças. Planejam vidas que ainda não existem, enumeram metas como quem risca itens numa lista, e criam cenários de uma versão idealizada de si mesmos.
Há os que prometem parar de fumar, imaginando pulmões renovados e um fôlego de juventude. Outros dizem que perderão peso, desenhando mentalmente corpos que cabem melhor nos moldes da sociedade – ou, quem sabe, nos próprios desejos. Há também os que juram aprender algo novo: um idioma, uma dança, um instrumento. A lista é longa, variada, mas, no fundo, carrega o mesmo tom: o de buscar algo que parece sempre estar um passo adiante, sempre além do agora.
E eu, aqui, olho para tudo isso com uma mistura de curiosidade e ceticismo. Não sei se acredito nas promessas. Elas sempre me pareceram frágeis, como castelos feitos de areia, desmoronando ao primeiro encontro com a onda da realidade. Há algo nelas que soa mais como um consolo do que uma decisão verdadeira. Prometer é fácil – realizar é onde a coisa complica.
Talvez, penso, as promessas sejam apenas um artifício. Um jeito de nos iludirmos, de fazer parecer que estamos no controle, que temos um plano. É quase um truque de mágica que fazemos conosco mesmos: a promessa é a cartola, o futuro é o coelho que, com sorte, puxaremos dela. Mas e se for apenas um truque vazio? E se nunca houver coelho algum?
No entanto, não nego que as promessas têm seu charme. Elas carregam algo profundamente humano: a esperança. Por mais incertas ou frágeis que sejam, elas nascem de um desejo genuíno de transformação. É como se, ao prometermos, disséssemos ao mundo – ou a nós mesmos – que não desistimos. Que, apesar das falhas, dos tropeços e das desistências passadas, ainda acreditamos na possibilidade de sermos melhores.
Mas a vida, eu percebo, não espera por dezembro. Quem realmente deseja mudar não precisa do ritual das promessas. Começa na quarta-feira de uma semana qualquer, no meio de um mês comum. Porque o desejo verdadeiro não precisa de data marcada. Ele é como uma chama: acende e consome, impulsionando ações antes que as palavras sequer sejam ditas.
Ainda assim, é impossível ignorar a beleza desse momento. O final de um ano é como uma pausa, uma vírgula na frase longa da existência. É o momento em que olhamos para trás, tentando contabilizar o que deu certo, o que falhou, o que ficou pelo caminho. E, nessa pausa, talvez prometer algo seja uma maneira de dizer: eu continuo avançando.
E quem sou eu para julgar? Não faço promessas, mas também não me furto ao ato de refletir. Dezembro, com suas luzes e suas esperanças, é uma oportunidade rara. Um instante de olhar para dentro, de reconhecer nossas imperfeições e, quem sabe, acolhê-las. Porque, no fundo, as promessas – mesmo aquelas que não cumprimos – são a expressão daquilo que queremos ser. E querer, por si só, já é um começo.
Então, entre uma música natalina e outra, observo as pessoas e suas listas. Talvez não sejam os atos concretos que importam, mas o gesto simbólico. A promessa não precisa ser cumprida para ser valiosa. Às vezes, ela é apenas um lembrete de que, apesar de tudo, ainda acreditamos em algo maior: a capacidade de mudar, de evoluir, de sermos mais do que fomos.
E se dezembro é o mês das promessas, que seja também o mês da aceitação. De nos olharmos com ternura, reconhecendo que, mesmo imperfeitos, seguimos nos esforçando – e isso, por si só, já é um pequeno milagre.
Autor: Iáres Souzà