O eco da rotina


Maria acordou, como sempre, com o som do despertador cortando o silêncio da madrugada, que insistia em se arrastar até o dia. Era 6h30. A luz da manhã, já branda e sem pressa, se filtrava pelas cortinas, como se também estivesse cansada. Ela desligou o alarme, mas o som ainda ecoava em sua cabeça, como se fosse parte dela agora. Desviou os olhos do relógio e, sem fazer muita força, colocou os pés no chão. O frio da madeira do piso a fez estremecer levemente. Sentiu a familiar sensação de peso, não apenas físico, mas algo mais profundo, que a acompanhava toda manhã. Um peso que ela ainda não sabia como chamar, mas que sempre estava lá. Era como se o dia já tivesse começado antes mesmo de ela abrir os olhos.

Com um bocejo, arrastou-se até o banheiro. A escova de dentes estava lá, sempre no mesmo lugar, como se aguardasse sua visita, mas ela mal prestava atenção. Os movimentos eram automáticos. Escovar os dentes, lavar o rosto, olhar-se no espelho. Mas, ao olhar para si mesma, Maria não via mais a mesma pessoa. Quem ela era? O que ela estava fazendo ali, repetindo essas mesmas ações todos os dias? A pergunta parecia se esconder, e ela não tinha tempo para enfrentá-la. Não ainda. As respostas, se é que existiam, estavam além de sua compreensão.

O café estava pronto, como sempre. O cheiro do pão torrando, que costumava ser um conforto, agora parecia um lembrete de algo perdido. Ela pegou a xícara e sentou-se à mesa, olhando para o café fumegante. O líquido quente nas mãos a fazia sentir um mínimo de aconchego, mas o gosto era amargo, como todos os outros dias. Ela sentia falta de algo, mas não sabia exatamente do que. O movimento de beber o café e morder o pão parecia tão normal, mas algo dentro dela dizia que havia algo errado. Algo faltava. Ela se pegou pensando: Por que tudo isso? Por que seguir assim todos os dias?

No trabalho, o dia foi um reflexo exato do anterior. E do anterior. A rotina estava em tudo, até no sorriso falso dos colegas, no ritmo monótono das conversas sobre coisas sem importância. Ela digitava, falava, escutava, mas sua mente estava em outro lugar, vagando, tentando encontrar uma resposta para uma pergunta que ela não sabia como formular. “Eu estou fazendo o que mesmo?”, pensou, e logo se deu conta de que nem ela sabia.

A mesma sala, as mesmas paredes, os mesmos rostos. Estava presa em um lugar sem mudança, sem movimento. Aquilo não fazia mais sentido. Mas o que seria o sentido? Ela já nem sabia mais. As pessoas falavam sobre “prosseguir”, “evoluir”, “conquistar”. Mas ela não se sentia assim. Como se o tempo estivesse correndo ao seu redor, mas ela estivesse parada, olhando, sem conseguir se mover.

No caminho de volta para casa, observou as mesmas ruas, os mesmos carros, as mesmas pessoas apressadas, todas indo para algum lugar que ela não sabia onde era. O céu escuro da noite parecia pesar sobre ela, e se pegou pensando: É assim que a vida vai ser? Um dia igual ao outro, até o fim?

Chegou em casa e deixou a chave na mesinha da entrada. O lugar estava silencioso, como sempre. O sofá parecia ainda mais desconfortável hoje. Ela se deixou cair ali, sem ânimo, e olhou para os objetos ao seu redor. O quadro na parede, o relógio antigo, o abajur que nunca usava. Cada coisa parecia parte de um cenário repetido, quase cenográfico. Ela não sabia mais o que estava fazendo ali. O jantar foi rápido e sem sabor, como sempre. Batatas que ela cortava com a mesma precisão de quem já faz aquilo tantas vezes que não precisa pensar. Mas, enquanto mexia a panela, algo dentro dela gritou, algo que não podia mais ignorar.

“Por que isso tudo?”, ela se perguntou em voz baixa, como se a resposta estivesse em algum lugar fora de si. Mas as palavras ecoaram em um vazio. Porque talvez, no fundo, ela soubesse. Não havia uma grande razão. O sentido estava nas pequenas coisas, nos gestos repetidos, nos momentos que ela nunca parava para notar. Ela estava vivendo, e isso deveria ser o suficiente, certo? Mas será que era?

Deitada na cama, com a luz do abajur ainda acesa, Maria ficou olhando para o teto. O som do ventilador fazia um ruído suave, um som de fundo constante. Sua mente, cansada de tentar encontrar respostas, começou a se aquietar. E se a vida dela fosse exatamente isso? O ciclo sem fim de rotinas, sem grandes revelações ou respostas definitivas? E se, no fim das contas, não fosse para haver algo grandioso, apenas a repetição dos dias, um após o outro? Ela fechou os olhos, tentando se convencer de que aquilo estava bem. Que aquilo fazia sentido. Mas, no fundo, ela sabia que nada disso fazia.

Ela ainda estava lá, deitada, no mesmo lugar, perguntando-se se as perguntas realmente importavam. Porque, talvez, tudo isso fosse apenas o eco da rotina, e ela, Maria, estivesse apenas esperando o fim de um ciclo que nunca mudaria.


Autor: Iáres Souzà

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