Andando por aí, meus passos tropeçam na busca por uma primavera que parece existir apenas na memória. Ela não se anuncia em flores ou brisas, mas se esconde em lugares improváveis, como se o calor das ruas tivesse transformado tudo em pedra e fumaça. O asfalto arde sob os meus pés, e eu pulo de sombra em sombra, num esforço quase infantil para escapar do sol que me vigia, insistente.
Os olhos percorrem a paisagem, mas não há vestígios de verde. Tudo é cinza, tudo é rápido. O mundo parece correr para algum destino que desconheço, mas onde, certamente, não há tempo para primaveras. A pressa da cidade grita em buzinas e passos apressados, enquanto eu, perdido na contramão desse ritmo, sigo em busca de algo que talvez só exista em mim.
Então, chego ao mar. Ele aparece no fim da caminhada, como um presente inesperado. Sua vastidão me engole os sentidos. Aqui, o barulho é outro: o das ondas que quebram, como se o mar quisesse falar, mas só conseguisse sussurrar. Ele guarda segredos que não se traduzem, e eu, parado à sua margem, sinto que também carrego dentro de mim esse mesmo silêncio inquieto.
Olho para o horizonte e percebo que o mar não repousa; ele é movimento eterno, vaivém sem fim. Não se contenta em ficar, mas também não sabe partir. Somos iguais, eu e ele, girando em círculos na tentativa de encontrar algo. Ele beija a areia e recua, incansável. Eu caminho pelas ruas e me deixo engolir por perguntas que não sei responder.
Mas é ali, na beira desse mar, que começo a entender. A primavera que procuro não está entre as coisas visíveis. Ela não floresce sob o concreto, não se rende ao calor. A primavera, talvez, seja a coragem de continuar. De andar mesmo quando o caminho parece seco, de buscar mesmo sem saber o que se quer.
O céu começa a mudar de cor. Um tom avermelhado anuncia o fim do dia, e, de repente, tudo parece menos urgente. A primavera está ali, invisível, mas viva, em cada coisa pequena: no cheiro do sal que me alcança, no vento que dança nos fios de cabelo, no instante em que o mundo, mesmo tão caótico, se permite ser belo.
E então caminho de volta, ainda sem respostas, mas com a certeza de que a primavera nunca esteve perdida. Ela é o que nasce, ainda que tímida, dentro de quem ousa procurar.
Autor: Iáres Souzà